sábado, 7 de junho de 2008

ZÉZÉ DO CORAÇÃO DE OURO

"O meu pé de laranja lima" foi o livro que mais me marcou na minha infância. Que mais me marcou porque foi o primeiro livro que lí de "fio a pavio" e me encantou e me motivou para a leitura. Lí-o vezes sem conta ao longo da vida. Hoje peguei nele e matei saudades.

Deixo aqui uma das partes mais meigas e bonitas, entre muitas outras, que o livro tem:

A escola. A flor. A flor. A escola...
Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula, me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zézé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zézé. É verdade?
Balancei a cabeça afirmativamente.
- Da flor? É, sim, senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que não faz falta.
- Sim. Mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas é um “furtinho”.
- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também...
Ela ficou espantada com a minha lógica.
- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro... E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?...
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some...
- Eu não podia aceitar todos os dias...
- Por quê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
- Quem é a Corujinha?
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
- Sei. A Dorotília.
- É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. U divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo o sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso, Zézé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso Zézé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...

9 comentários:

Maria do Carmo Cruz disse...

Raul, Raul, que me acordaste o coração! Leio e releio este livro com lágrimas. Vejo o filme e choro. Não de pieguice. De emoção verdadeira. E as conversas com o pé de laranja-lima? Ai quantos Zézés se perdem por não encontrárem uma D. Cecília na via! Obrigada, logo de manhã, por este presente. Um beijo da Avó Pirueta

BC disse...

Só vim aqui para dizer que a par do principezinho ainda tenho, da minha
infância "O meu pé e Laranja Lima"e "Rosinha minha Canoa",aliás já falei nisso numa postagem aqui há uns tempos atrás.
HISTÓRIAS MARAVILHOSAS QUE NOS FAZEM SEMPRE SONHAR!!!!

Maria do Carmo Cruz disse...

Meus Amores, não sei se sabem, porque não me lembro se já contei, como é que eu, que não tive infância, li tanto. Hei-de contar-vos a estória. Vamos aos 10 anos eu tinha lido todo o Charles Dickens (chorei que me fartei) o Caçador de Veados, a Cabana do Pai Tomás, Nossa Senhora de Paris, os Miseráveis, a Biblia, a Eneida, a Odisseia, a Servidão Humana, O Fio da Navalha, sei lá que mais. Mas também tinha lido praticamente toda a Condessa de Ségur, O Pequeno Lorde, a Princesinha, o Rosário (as horas que passei contigo, roubou-as a Saudade ao Sonho Vário. E passo o tempo a desfiar, Amigo, as contas ideais deste rosário). Um dia vos contarei, como mesmo na noite mais escura, há sempre uma luz que brilha...
Beijo da Carmo

zézé... disse...

Só agora é que tive oportunidade de vir aqui Raul (sem stÕR, prometo que vou tentar mas acho que é dificil; lá na escola é stôr mas aqui é só Raul, não é? Pronto!)
Quem me dera ser o zézé desta história.Mas acho que é só o nome. Não sei porque disse que eu era parecido com ele. Espero que me diga. Tenho que arranjar o livro para ler. Pelo menos gostei desta parte. E já viu a D. Carmo quantos livros já tinha lido só com dez anos?
Um abraço.

Raul Martins disse...

Olá Zézé!
Gosto de te ver por aqui.
Pois bem, lê o livro e depois perceberás porque também acho que és parecido com o zézé do livro.
.
Não fiques atrapalhado porque a Avó Carmo já tinha lido muitos livros em pequena. Nós quando éramos pequenos, pelo menos eu, não tínhamos muita coisa para fazer, além, de brincarmos com os amigos, andar de bicicleta e jogar futebol. E uma forma de nos distraírmos era ler. E ir ao cinema. Todos os domingos eu ía ao cinema, à matiné, ao meio da tarde. Vocês agora têm televisão, computador,playstation, os "games" e isto e mais aquilo.
E a Avó Carmo era ( e é) uma pessoa especial. Queria estudar e o pai achava que não. Ela "enganou" os pais para ir estudar.
Amanhã vou colocar aqui uma entrevista online que ontem à noite fiz à Avó Carmo. Ela não fala disso, vai falar de outras coisas. Mas depois na aula eu completo com a história dela de quando era criança.
Ó zézé, já me fizeste escrever muito.
Um abraço.

Raul Martins disse...

Zézé... para conheceres um pouco mais a Avó Carmo. Ela deixou isto como comentário nun bloque amigo:

Olhe, eu fui das sossegadinhas, mas depois de ter precisado de três anos para convencer o meu Pai a deixar-me ir para o Liceu, o que eu queria era aprender. Aprender! Porque depois, em casa, tinha de trabalhar e não podia estudar. Tinha catorze anos enquanto as outras tinham 10 ou 11. Mas tive a Dra Laura, a Matemática, que nos propunha problemas, desde o 1º ano, interessantíssimos e que fazia acordos connosco para usarmos a nossa cabeça e não pedirmos ajuda em casa. E as gargalhadas dela, não de troça mas de puro divertimento, quando alguém se saía com uma resposta estapafúrdia!E que depois ela destrinçava como se tivesse adivinhado o processo mental do aluno. E a Dra. Hermínia Roberts, a minha Reitora, que me fez adorar os Lusíadas e manter a adoração até hoje. As milhentas histórias que ela contava quase sobre cada verso, o orgulho com que nos enchia por Camões ser Português! Ela era gorda, de facto, mas tinha aquele calor humano e acolhimento que é apanágio de muitas pessoas gordas e realmente, apesar de ser a Reitora, olhava muito para nós, as muitas brancas e as poucas negras e, certeiramente, chamava uma ou outra para conversar. Para saber se tínhamos problemas. Foi ela que descobriu que eu era míope de nascença. Aquele corpo redondo a ler Camões como se fosse a mais esbelta actriz a actuar num drama de Shakespeare,aquela entrega total, sei-o hoje, valia mais do que muitos Powerpoints, filmes, sei lá que mais.Estas duas, pelo menos, estiveram sempre por detrás de mim, a segredar-me o que fazer. Agora estão no Céu, certamente preocupadas por não poderem vir cá dar uma ajudinha...
.
E vou à procura de outro que ela me deixou...

Teresa disse...

Estou aqui a escrever para acalmar os meus nervos.
Portugal - Turquia vai acabar como Portugal - Grécia há quatro anos.

O livro aqui mencionado, nao é um dos livros de que eu muito gosto, mas sim o livro preferido da mae do Gui.

O v/ grupo todo cheio de ideais e com pensamentos profundos, e eu aqui às pulgas co medo que Portugal perca este jogo.

Viva Portugal!

Raul Martins disse...

E já, Teresa, pode deixar de roer as unhas. Ganhamos. Viva Portugal.

Teresa disse...

Rectifico: nervosa como estava ontem, nem me consegui expremir.
Tento outra vez: Este livro é um dos que eu mais gosto e me comoveu.
Mas além disso foi sempre o livro preferido da mae do Gui, que nunca foi de grandes leituras: ela é matemática.

Viva Portugal! Vamos ser Campeoes Europeus de Futebol 2008!