sábado, 5 de setembro de 2015

“Notas” soltas de um diário sem data.

DEUS, a MORTE, o AMOR e a VIDA… 


Em memória
do meu pai, pelos doze anos que vivemos juntos
e do Diogo, pelos dezasseis anos de amizade.

Ao Deus da Morte, da Vida e do Amor que me privou dos dois.
Saudade de Deus?
  
E ao Miguel
cuja interpelação sobre Deus me levou a escrever este texto.

DEUS EXISTE? Esta pergunta foi feita pelo meu amigo Miguel no twitter e prometi que lhe responderia, não por aquele meio onde apenas podemos escrever apenas 140 caracteres por twett, mas no meu blogue. Dei comigo a pensar na forma de lhe responder. Não queria falar-lhe em abstrato nem com teologias ou teorias sobre a existência de Deus. Queria escrever um texto que fosse um pretexto para trocarmos ideias e opiniões sobre Deus, a vida e o sentido dela. Queria dizer-lhe que acredito em Deus a partir da minha vida pessoal e de uma forma simples, ainda que, como muito bem diz Torga, “a vida não é para se escrever. A vida – esta intimidade profunda...é para se viver, não é para se fazer dela literatura”.

Ao querer escrever estas linhas como notas soltas de um diário sem data, convoco dois momentos marcantes da minha vida, a morte do meu pai- tinha eu doze anos - e a do Diogo, o meu melhor amigo – tínhamos ambos dezasseis anos. Foi com essas experiências que aprendi o que são os grandes temas da vida, pelo menos para mim: a Morte e o Amor. A Morte que me levou ao desespero e a uma luta intensa com Deus e, com isso, à descoberta da grandeza do Amor e o respeito pela vida. Tudo passa, só o amor permanece. Creio que a Morte e o Amor dão à vida o seu mais alto significado. A vida é curta demais para perdermos tempo com coisas inúteis; é preciso aproveitar cada instante da nossa vida, porque a Morte está ai ao virar da esquina.

Foi a partir da morte do meu pai que comecei a questionar-me sobre a vida, o sentido da vida, a existência de Deus, pois quando se questiona pelo sentido da vida, acabamos sempre por levantar a questão de Deus, da sua existência e da sua prova. Nada mais humano do que a interpelação pelo divino!

Vim de Angola no verão de 75. Chegamos ao Aeroporto da Portela ainda de madrugada e chovia imenso. Vim eu e a minha irmã mais nova com uns tios meus e três primos. Os meus pais ficaram em Angola. Contavam vir uns meses mais tarde. A minha mãe estava também para vir connosco mas resolveu, à última hora, ficar com o meu pai. Não me lembro da viagem. Penso que dormi o tempo todo. A sensação de separação dos meus pais fez-se sentir na primeira noite que passamos em Lisboa. A minha irmã – mais nova que eu seis anos - teve que dormir comigo. Queria o pai e a mãe. Depois de uns dias em Lisboa, rumamos para Murça. Recordo o tempo das vindimas no fim desse verão. Adorei! Ainda por lá iniciei o ano letivo mas pouco depois fui viver para Vila do Conde.
Ia dezembro nos seus primeiros dias quando recebi a notícia da morte do meu pai. Na Serra da Gabela, a caminho de Luanda, onde iriam apanhar o avião para vir para Portugal passar o Natal connosco, os meus pais tiveram um acidente. Foi D. Óscar Braga, Bispo de Benguela – amigo da minha família muito antes de ser padre e bispo, que deu a notícia.

O meu pai sofrera um traumatismo craniano e faleceu alguns minutos depois do acidente. Senti o mundo desabar e milhões de perguntas assaltaram o meu coração e nada de respostas. Não fui mais às aulas até ao final do primeiro período e perdi as duas primeiras semanas de aulas do segundo. Não queria voltar para a escola. Nada fazia sentido para mim.

Passei os dias a vaguear pela praia, das Caxinas até à foz do Ave. Porquê a mim? Se Deus existe, porque permite estas coisas? Mil perguntas e nada de respostas! Numas das vezes, um pescador – o senhor João - que reparara que eu já passava por ali há alguns dias, perguntou:
- Ó rapaz, então, não andas na escola?
- O que tem o senhor com isso!
- Tens razão, rapaz, tens razão. Eu não tenho nada com a tua vida.

Afastei-me do local onde ele se encontrava e senti que tinha sido mal-educado. Não me tinha feito mal algum e talvez só quisesse meter conversa comigo e eu tinha respondido daquela forma. No dia seguinte lá estava o senhor João. Abeirei-me dele e pedi-lhe desculpa por ter sido mal-educado e lá contei o que se passava comigo. Ouviu a minha história e ele contou-me a sua. Eu tinha perdido o meu pai mas ele tinha perdido dois filhos, os seus únicos filhos, num barco que se virou para os lados de Viana do Castelo num dia de temporal e nunca mais os viu. De um momento para o outro viu-se privado de ser pai.
- Eu que era pai e deixei de o ser” – dizia ele – “e não há dor maior que essa e por isso eu sei o que vai no teu coração. – Porque perdeste o teu pai, és órfão. Sabes que nome se dá a um pai que perdeu um filho? Não há palavra alguma. Não há palavra para dizer o que é um pai que perde o seu filho.
Foi com ele que eu conversei naqueles dias. O Diogo, o primeiro amigo que tive em Vila do Conde, de quando em vez, também aparecia por ali. Aproveitava todas as oportunidades para me fazer sorrir.
No meio das nossas conversas surgiu a questão de Deus. – Deus não existe… melhor, deixou de existir – dizia eu. E lá argumentava eu dizendo que se Deus existisse não permitiria que uma criança como eu perdesse o pai nem que um pai como o senhor João perdesse os filhos. O Diogo corroborava essa ideia. – Eu nunca acreditei nessas tretas de Deus – dizia ele. Nas conversas que sempre tivemos desde que eu fui para a catequese, ele achava que não fazia sentido ir à catequese e à missa aos domingos, assim como rezar, porque isso de Deus e da religião era apenas para iludir as pessoas. Já Jesus Cristo era outra coisa. Um grande homem que passou pela terra fazendo o bem e que ensinou coisas maravilhosas mas que não era Deus. Apenas um homem como qualquer outro, ainda que excecional. Saia ao pai dele. A mãe já não era assim. Era uma mulher crente e até, como erámos muito amigos, me pedia que eu convencesse o Diogo a ir para a catequese. O senhor João ouvia com interesse as nossas conversas e nessa questão sobre Deus apenas nos disse: - Também tenho dúvidas. Mas como pescador já passei por momentos muito difíceis na vida do mar e tive que acreditar na ajuda de alguém superior a todos nós nesses momentos e, – dizia ele – quando recorria a esse “alguém” superior, sentia paz e houve situações adversas que, assegura, só pode ter sido ajuda de “alguém”. Lembro-me de ele contar que, porque nascera um dos filhos, ficara em terra e não tinha saído para pescar. O barco onde embarcaria não voltara a terra naquele dia. Teve problemas para os lados de caminha e afundou-se. Ninguém sobreviveu. Foi um dos milagres na minha vida. Acreditar em Deus era uma forma de me sentir protegido.

Esse “alguém” protetor para ele era Deus. Fiquei revoltado com esse “alguém”, - disse o senhor João - quando os meus filhos faleceram. Mas a vida não seria isso mesmo? Uma dádiva mas também a disponibilidade de se ficar sem ela? Não era estar disponível para o que a vida nos dá e nos pede em troca?

Foi o senhor João – em sua honra dei este nome ao meu filho - que me convenceu a voltar para as aulas já janeiro ia quase a meio. Aprendi com ele a força da vida e o saborear as coisas boas. Com ele ganhei estofo para novas jornadas. Com ele aprendi a olhar a dor e a saber entender a dor dos outros.

Conhecer o senhor João amenizou a minha dor. Fez-me ver que, ainda que a vida não seja muitas vezes o que queremos, temos que seguir em frente e lutar.

Pouco anos depois, ainda à procura de respostas sobre a vida, o sentido da vida e sobre Deus, eis que novo acontecimento abala a minha vida: a morte do Diogo.

Na Páscoa de 80, no nosso primeiro dia de férias, eu e o Diogo resolvemos ir passear de bicicleta até à Povoa. Nem consigo descrever o que aconteceu. Apenas vi uma carrinha Ford a bater descontrolada contra a bicicleta do Diogo e a projetá-lo pelo ar. Foi tremendo. Quando vi o Diogo sem se mexer e sem falar, todo ensanguentado, imaginei o pior e o pior veio a concretizar-se umas semanas depois.
Foi hospitalizado no Santo António, no Porto. Só na terceira semana de hospitalização consegui ir visitá-lo. Fui com a mãe dele. Encontrei-o muito debilitado. Tinha partido uma perna, algumas costelas e, o mais grave, tinha perfurado os pulmões e em virtude disso estava em risco de vida. Só me permitiram estar com ele pouco mais de cinco minutos. Serviram para um sereno encostar do meu rosto no seu. Senti necessidade de abraçá-lo mas não podia. Ainda tenho presente as palavras que o Diogo me disse naquele dia: “Mano… és o melhor que tive na vida… eu apenas sei que tenho um lugar no teu coração; que permanecerei sempre em ti e tu permanecerás sempre em mim, aconteça o que acontecer.” Quando sai do quarto em que estava ele sorriu e ficou sereno. Eu sai e deixei cair algumas lágrimas pelo meu rosto. Faleceu dois dias depois de eu o visitar. Foi a mãe dele que me deu a notícia, juntamente com um pequeno bilhete do Diogo onde estava escrito: “O encontro do meu coração com o teu acontecerá no coração de Deus.” Pela primeira vez vi uma luz a apontar para Deus em palavras do Diogo. Mas tudo se voltou a desmoronar. Foram mais alguns dias em que tudo deixou de fazer sentido. E foi quando eu me agarrei às palavras que ele me disse: “tenho um lugar no teu coração… permanecerei sempre em ti… permanecerás sempre em mim… aconteça o que acontecer…” e às palavras que ele escreveu: “no coração de Deus.”

Como posso continuar a permanecer em ti? Existirás numa outra dimensão em que te é permitido que eu permaneça em ti e sintas a minha presença? Voltaremos a encontrar-nos? Sim… permaneces em mim… eu permaneço em ti… vamos encontrar-nos no coração de Deus… Há algo para além da nossa existência aqui e agora, caso contrário a vida não fazia sentido. Vou viver até que nos reencontremos. Até que te reencontre a ti e o meu pai. Faz sentido! Existe algo mais para além desta existência. Existe um “alguém” protetor… o tal Deus… que “gere” essa dimensão e, de quando em vez, precisa de gente nova perto de si, para jogar, dançar, cantar, conversar… e por isso chamou para junto de si o meu pai e o Diogo. Foi a este pedaço de esperança numa outra dimensão que me trouxe paz, alegria de viver, de lutar para ser feliz. Pode não fazer sentido para muitos… mas para mim faz.

Temos de dar à vida, na linha de Torga, o que a vida nos pede: cada momento cheio de entusiasmo e de qualquer dádiva e que eu sou uma tarefa a realizar e não posso ser um homem mediano.

Senti que as mortes do meu pai e do Diogo eram o início de uma grande maratona e que nada voltaria a ser como dantes. Foi o revestimento àquilo que hoje a minha esposa chama de “capa” contra as contrariedades da vida e do saber olhar sempre o lado positivo de todas as coisas: tudo o que nos acontece tem uma razão de ser. Mas também, segundo a minha esposa, a “capa” que me faz guardar para dentro muitas das coisas que me fazem sofrer – e é verdade. Não estamos desligados da nossa história!

“Leva na tua memória,
para o resto da vida,
as coisas boas que surgiram nas dificuldades.
Elas serão uma prova da tua capacidade,
e dar-te-ão confiança diante de qualquer obstáculo.”
(Paulo Coelho)


quarta-feira, 2 de setembro de 2015