quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

NA "ROTA" DOS BLOGUES AMIGOS!

Ando agora pouco - já aqui o disse - pelos blogues, porque mais fascinado pelo "face", pela facilidade de comunicação. Mas isto tem o seu preço, o de perdermos belíssimos textos que vão sendo publicados por blogues de amigos, como é o caso do Existente Instante que, em vésperas de Natal, nos brindou com belíssimos postes, bem ao seu estilo, e que aqui deixo os links:


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

AS CRIANÇAS E A PAZ!


Foi ali,
Sem mais, digo-vos
- Em frente do jardim, colorido
Depois de cantar com rouca voz –
De uma criança, recebi
Um abraço e beijo comovido.

E comovido permaneci
Sorrindo, para ela, feliz:
Meu canto de aprendiz
Da paz sempre desejada
Já começou a deitar raiz
Neste início de jornada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"Mãe" Rosinha!



Ainda ontem "arranhava" uma canção do Paco Bandeira, "... sou filho de muitas mães..." e cá em casa "debatemos" as "mães" que a "vida" me deu: Mãe Natália, que me gerou; "Mãe" Madre Monteiro, prima e madrinha do meu pai que me acompanhou desde a morte do meu pai; "Mãe" Odete, minha sogra (que me conheceu muito antes de eu conhecer e me apaixonar pela filha, a minha Émy -quase 10 anos antes, era eu uma criancinha!); "Mãe" "Jájá" (nome carinhoso com que toda a família chamava à tia Sara, irmã do meu pai); "Mãe" Julieta, prima que também me acompanhou até eu me casar e "Mãe" Rosinha, mãe do meu "IRMÃOmaisNOVO"" Diogo Castro do qual já fui falando de quando em vez por aqui.

E é da "Mãe" Rosinha que hoje vos quero falar. Recebi a notícia que faleceu ontem à noite. E a memória levou-me a regressar aos tempos em que vivi em Vila do Conde (dois anos) e onde, depois de sair de lá, ia aos fins de semana. Do "palco" do meu coração vejo-a a receber-me, quando por lá aparecia, sempre com um sorriso... os bolinhos secos que ela fazia e que eu e o Diogo devorávamos; o leite creme; o chocolate quente no inverno... os "troquinhos" que ela dava ao Diogo para irmos ao cinema... Tanta coisa para lembrar!

E do "palco" do meu coração também vejo a sua tristeza no dia em que o Bom Deus chamou a si o Diogo. Nunca mais voltou a ser quem era. Nunca mais o sorriso foi o mesmo. Nunca voltei a entrar naquela casa sem que me abraçasse e me desse um beijo e uma lágrima lhe corresse pelo rosto. Agora foi ela que partiu, 31 anos depois da partida do filho.

Hoje, do "palco" do meu coração imagino o reencontro de mãe e filho. Um reencontro no coração de Deus. Acredito!

Obrigado "Mãe" Rosinha, por teres sido uma das muitas "mães" que a vida me deu. Ainda ontem falávamos sobre isso... Coincidências! Mais uma estrela no céu a olhar por mim. Até um dia, "Mãe" Rosinha! Vamos encontrar-nos todos, algures, um dia, no coração de Deus!

P.S.: A vida deu-me muitas "mães"  porque infelizmente estive 16 anos sem a presença da minha mãe. O meu pai faleceu de acidente quando iam de Benguela para Luanda para virem para Portugal passar o Natal. Ficou traumatizada com o acidente e sempre foi adiando a vinda a Portugal. Só o fez 16 anos depois da morte do meu pai. Assim, foram todas estas "mães" o meu "amparo". História de vida!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

PAUZINHOS DE MARFIM!

Via "Contadores de Histórias." Uma boa "parábola" tendo em conta  os tempos que estamos a viver.

Conto do filósofo chinês Han Fei, oito séculos antes da nossa era.

Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com ele e explicou-lhe:

— Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de pauzinhos pode levar-te à perdição!

O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:

— Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.

Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos. Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção.
O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

DEUS!

Gosto das pessoas simples,
- diz Deus –
E que fazem os outros felizes!



Chegara o momento de regressarmos e descermos a montanha. O sol-pôr já começava a fazer-se anunciar. Despedimo-nos do nosso Mestre.

Tínhamos já dado os primeiros passos em direção à aldeia quando resolvi interromper a marcha. Olhei para trás e disse ao Mestre:

- Amanhã, gostava que nos falasses de Deus.

Semi-serrou os olhos, esboçou um sorrindo e com um leve abanar de cabeça disse que sim e eu retomei o caminho com Áquila. Quando chegámos à aldeia, o sol já se tinha despedido e corria uma brisa fria. Fui para casa e nela entrei ao mesmo tempo que o meu pai. Fora a primeira vez que tal acontecera. O meu pai sempre chegou mais tarde do que eu. Sentamo-nos à lareira a conversar sobre o desenrolar do dia, enquanto a minha mãe acabava o ensopado de borrego e acompanhava a nossa conversa.

Depois do jantar, e de termos rezado ao ritmo das orações simples da minha mãe, foi tempo de repousar. Antes de viajar para a terra do sono e dos sonhos, o meu pensamento levou-me momentaneamente ao Mestre e a pensar na oportunidade que teria de o ouvir falar de Deus.

No dia seguinte, talvez fruto do cansaço do dia anterior, só acordei quando senti a voz de Áquila: - São horas. Levantei-me e salpiquei o rosto com água e não fiz as minhas habituais sopas de leite. Bebi de um trago o leite e levei o pão comigo para o comer durante o caminho. Quando íamos a sair, junto à soleira da porta, estava o cão do nosso velho Mestre, o “Lembrança” – ainda não sabíamos porque tinha esse nome. Áquila e eu olhamo-nos admirados por o vermos ali. Lembrança latiu, abanou a cauda e começou a caminhar.

– Será que nos quer levar a algum lado? Questionou Áquila.

- Não faço ideia… vamos segui-lo, - respondi ao meu amigo.

Assim o fizemos. O cão levou-nos em direção ao mar. Caminhou pela areia e levou-nos até junto a um grupo de pescadores que acabavam de arrumar as redes e se preparavam para ir vender o peixe no mercado.

- Olha o cão do Mestre da montanha! - disse Petrus, um dos mais experimentados pescadores. – Que fazem vocês aqui com ele? – perguntou.

- Ele é que nos trouxe até aqui… – fui explicando - íamos ter com o Mestre e encontramos o seu cão à soleira de minha casa. Resolvemos segui-lo e aqui estamos.

- Olhem, - disse Petrus, pegando em dois Robalos e embrulhando-os num pedaço de papel – levem estes peixes para o velho Mestre. Digam-lhe que fui eu lhos mandei.

Pegámos nos peixes e, antes de seguirmos viagem, ficámos ali por alguns minutos a apreciar a imensidão do mar, o vai e vem das ondas e o seu murmúrio suave. Estava calmo naquele dia. Até “Lembrança” parecia apreciar o mar.

De repente, “Lembrança” latiu e começou a andar. Seguimos atrás dele. Levou-nos pela rua da “Esperança” que desembocava no centro da Praça. Era dia do mercado mensal na aldeia. As pessoas iam de um lado para o outro, fazendo as suas compras, regateando preços. Enquanto passávamos pelas pessoas, umas cumprimentavam-nos, outras sorriam para nós e dirigiam-nos algumas palavras e outras quase que nem se apercebiam que passávamos por elas. Fomos sempre seguindo “Lembrança” que parou junto a um homem que estava sentado a pedir esmola. Não tinha um dos braços e parecia cego de um olho. Não o que conhecia e pelo semblante do rosto e o encolher de ombros de Áquila, percebi que ele também não. Mas “Lembrança” e ele pareciam ser “velhos” amigos. O homem acariciou o dorso de “Lembrança” que agradecia com um suave abanar da cauda. Nos breves momentos em que ali estivemos, algumas pessoas cumprimentaram o homem deixando algum dinheiro numa pequena lata que ele tinha ao seu lado; outras deixaram-lhe alimentos: pão, laranjas, peixe seco, batatas… Outros passavam e nada diziam nem nada faziam. Apenas passavam. Talvez não o conhecessem, como nós não o conhecíamos. E como era possível, vivermos naquela pequena aldeia e nunca nos termos apercebido do homem? De repente, “Lembrança” saltou para cima do homem e tombou-o. O homem riu-se sem parar e pegando na cabeça de “Lembrança”, abanou-a com carinho e disse: - Juízo, “Lembrança”, porta-te bem. O que ficarão a pensar estes teus amigos? – rematou, esboçando um sorriso de felicidade, dando uma esfregadela no focinho de “Lembrança” que, rodopiando, deu umas voltas a correr à volta do homem e retomou o caminho da montanha.

Quando chegámos ao sopé da montanha, “Lembrança” levou-nos por um trilho que nos era estranho. Ainda hesitámos em segui-lo quando o trilho nos guiou por meio de uma pequena mas densa zona de arbustos, e de tal maneira cerrada que só umas réstias de sol conseguiam ali penetrar, mas achamos por bem ir com ele. Depois de algum tempo, quase a meio da montanha, encontrámos o riacho e seguimos pela sua beira até que encontramos uma ermida que não conhecíamos ainda que tivéssemos ouvido falar dela. “Lembrança” parou e latiu. De dentro dela saiu o Mestre que nos cumprimentou e sentamo-nos numa pedra enorme que se entendia ao comprido perto da ermida.

- Viemos a este lugar onde está a ermida porque vamos falar de Deus? – Perguntou Áquila.

- Também, mas não só! - disse o Mestre, esboçando um largo sorriso. – Apenas porque daqui podemos apreciar esta magnífica paisagem. Olhem, – disse, apontando para o horizonte - vejam como a paisagem se estende muito para além do que os nossos olhos podem ver, o nosso coração sentir e os nossos ouvidos escutar; assim como existem muitas formas de ver, sentir e escutar a Deus.

- A ermida é pequena mas é bonita - disse-lhe. - Esta ermida, - continuou o velho Mestre - tem mais de cinco mil anos. Já a reconstruíram várias vezes, como várias foram as formas que foi ganhando. Já aqui adoraram, reza a história, uma deusa da antiguidade, depois deuses e agora é uma ermida dedicada a São Marão que certa vez aqui apareceu, a reconstruiu e a transformou em casa de oração. Tinha fama de ser um homem austero e viveu por estas montanhas durante muito tempo.

- Mas fala-nos de Deus, como combinado. – Disse-lhe.

- Eu sobre Deus quase nada sei. Já viajei por muitas paragens por esse mundo fora e muitas coisas ouvi sobre Deus. Houve quem me fizesse eloquentes discursos sobre Deus, outros que lutavam e matavam em nome de Deus; vi multidões que se juntavam para orar ao seu Deus como vi muitos outros que se resguardavam em locais como este para permanecerem em silêncio com Deus. Com todos eles aprendi um pouco sobre Deus mas continuo a saber muito pouco sobre Ele.

- Mas diz-nos o que sabes. – Insistiu Áquila.

- Deus é imensidão. Hoje não viram vocês o mar? Abanamos a cabeça afirmando que sim. – Somos capazes – foi dizendo – de compreender a sua grandeza? Podemos banhar-nos nele, apreciar a sua beleza, retirar dele sustento, sentir o seu poder mas nunca poderemos saber tudo o que ele encerra. É infinito, aos nossos olhos, o mar. Assim também Deus.

- Por onde passaram depois de irem ao mar? – Perguntou.

- Passamos pelo mercado, - respondeu Áquila.

Começámos a perceber que o percurso que fizéramos tinha um qualquer objetivo e não tinha sido um mero acaso.

- O que sentiram? – questionou mas continuou sem nos dar oportunidade de dizermos o que sentíramos. - Certamente houve quem vos olhasse, talvez vos sorrisse, talvez vos dirigisse alguma palavra, assim como outros passaram por vocês e nada disseram. Deus é imensidão mas vive no meio das pessoas, na sua mente, no seu coração e nos seus gestos. Só que muitos andam tão agitados como as pessoas que estavam no mercado que quase não se apercebem da Sua presença. Deus está sobretudo nos simples e nos que sofrem.

- Como o homem que não tinha um braço e que parece cego de um olho? – disse-lhe.

- Sim, o meu velho amigo “Emiliano”. E viram que gestos as pessoas tiveram com ele? – questionou-nos.

- Houve quem falasse com ele; quem lhe desse algum dinheiro, assim como outros lhe deram alimentos. – Respondeu Áquila.

- E outros que não se aperceberam dele nem lhe dirigiram palavra alguma. – Acrescentei.

- Talvez porque não o conheciam. Nós também não o conhecíamos. – Concluí.

Pois, - foi dizendo o Mestre – Deus muitas vezes está no meio de nós e está ao nosso lado e não nos apercebemos. Mas não é só nas pessoas que Deus se nos pode tornar presente. Também nos momentos mais obscuros da nossa vida - pois nem tudo é como queremos - Deus está presente e é como aqueles raios de luz que não deixaram de ser fazer sentir.. E Deus também se encontra no silêncio da natureza como neste espaço em que nos encontramos.

- E o Deus é o mesmo para todos? – perguntou Áquila. - É que há tempos passou um pregador pela aldeia a dizer que vinha falar-nos de um Deus diferente daquele em que acreditávamos na aldeia.

- Abeiremo-nos do pequeno riacho, – disse. – Áquila, - continuou – vai para o outro lado. E Áquila obedeceu ainda que não entendesse bem o que o Mestre queria. E dirigindo-se para mim, disse: - Ficas deste lado, à beirinha do riacho.

- Refresquem o vosso rosto com a água do riacho e bebam um pouco de água. - Ordenou e nós obedecemos.

- Podeis refrescar-vos e beber de lados diferentes do riacho, mas a água é a mesma. Podemos pensar e sentir Deus de maneiras diferentes, mas é o mesmo Deus; o Deus que me faz feliz a mim, também vos faz feliz a vós – foi dizendo. – Assim como a chuva cai no meu terreno, também cai no terreno do meu vizinho; o sol que ilumina o meu rosto, ilumina também o vosso. Deus é comunhão, comunicação, é abertura, nós é que Lhe fechamos muitas vezes a janela para que ele possa entrar – parou para refletir um pouco e continuou:

- Acredito que haja muitos pregadores que falam de que o seu Deus é que é verdadeiro, mas o que eu sei é que ninguém é domo da verdade e ninguém sabe tudo sobre Deus. O importante é que cada um respeite o caminho que cada um faz em busca de Deus; que acredite que o caminho que faz é o que entende ser melhor, respeitando o caminho que os outros seguem e que, ainda mais importante, - disse com mais que convicção – se respeite aqueles que dizem que não acreditam em Deus e que isso é apenas uma “invenção” do homem. Esses também estão a fazer o seu “caminho”. E esses “caminhos”, dos que acreditam em Deus, os homens denominaram-nos de “religiões”. Um antigo Mestre, com quem muito aprendi e que para sempre ficou no meu coração, uma vez disse-me: “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importa seguirmos diferentes caminhos, desde que alcancemos a mesma meta?” Isso é que é importante – concluiu.

- Venham, - disse ainda o Mestre – venham ver algo que está escrito na entrada desta ermida. E ele leu-nos com a sua voz suave e doce o que estava escrito:

Gosto da pessoas simples,
- diz Deus –
E que fazem os outros felizes!

- E, - acrescentou o Mestre – mais importante do que as palavras que vos possa dizer de Deus, são os nossos gestos que devem falar de Deus. Entremos, - continuou – e rezemos juntos ao Deus da vida, do amor e da morte. E o Mestre rezou:

“Sobre ti, meu Deus e meu Pai,
eu quase nada sei;
só sei que em ti encontro paz.

Não sei se habitas o infinito dos céus,
nas profundezas do mar
ou no mais profundo da terra;
mas sei que estás no coração de cada um de nós.
Hoje, apenas Te peço que me protejas
e protejas estes meus amigos;
que saibamos encontrar-Te pelos caminhos que percorrermos
até ao dia em que habitaremos definitivamente o teu coração.”

E depois de uns breves momentos em silêncio saímos da ermida e “Lembrança” começou a ladrar e a encostar-se a mim, batendo com as suas patas na minha sacola. Eu sorri e percebi que ele queria lembrar-me que trazia comigo os peixes que Petrus nos tinha dado. Dei os peixes ao Mestre que os preparou e os cozinhamos numas brasas que fizemos com ramos secos que estavam espalhados por ali. Saboreamos o peixe com o naco de pão que guardara do pequeno almoço. Depois, despedimo-nos do Mestre e descemos para aldeia.
Enquanto descíamos a montanha, repeti para comigo: “De Deus, mais importante do que as palavras que possamos dizer, são os nossos gestos que devem falar de Deus.”

R.M. in “Luar e o seu Tesouro.”

O TESOURO!

O “garimpeiro” que tinha ficado hospedado em minha casa, partiu assim que a primavera se fez anunciar com o cantar dos primeiros pássaros e a neve já não se vislumbrava no alto das montanhas. – “Era a altura ideal para partir." Dissera quando se despediu, depois de pagar à minha mãe o que fora acordado no início do inverno para permanecer em nossa casa enquanto esperava pela primavera.
Enquanto esteve connosco, o “garimpeiro” falou-me dos seus sonhos de encontrar um tesouro, assinalado num mapa que me mostrou e que tinha encontrado, algures, numa das viagens que fizera por terras mais a sul. O mapa assinalava que o tesouro ficava para norte mas o seu desenho era muito confuso. Tentou convencer-me a partir com ele mas disse-lhe sempre que era ainda muito novo e que os meus pais precisavam de mim.

Mas o facto de não ter ido com o “garimpeiro” à procura do tesouro dos seus sonhos, não deixou de me inquietar. As palavras, “não queres partir comigo à procura do tesouro que está neste mapa”, que ele me dissera, assim como a imagem do mapa que ele tinha, não desapareciam da minha mente. Até a dormir, a imagem do garimpeiro, as suas palavras e o mapa, não deixavam a minha mente em paz.
À minha volta todos começaram a reparar no meu olhar inquieto e na tristeza que o meu rosto – diziam – fazia transparecer.
- Que se passa, Luar? Nunca te vi assim. Disse-me o meu amigo Áquila.
Expliquei-lhe o que se passava comigo mas ele não compreendia para que queria eu um tesouro. “Para viajar; conhecer novos mundos, comprar o que desejamos...” Ia-lhe dizendo mas não o convencia. Áquila, lembrou-se, então, que ouvira falar de um homem que vivia na montanha que ficava a oriente da aldeia – era a mais alta das montanhas que ali existia – e, dizia, era sábio e ajudava as pessoas que a ele recorriam a pedir ajuda e conselhos, ainda que ninguém soubesse bem onde morava. “Mora algures na montanha e só muito raramente descia à aldeia.”, era o que diziam.
E Áquila convenceu-me a procurar o tal sábio da montanha e prontamente disse que iria comigo. Resolvemos ir à sua procura na manhã seguinte. E assim foi. Com algum pão, um naco de presunto, algumas azeitonas e água, partimos logo que os primeiros raios da manhã surgiram.

Fomos subindo pela montanha, seguindo um trilho que existia à beira de um riacho que por ela serpenteava, apreciando o colorido das flores que começavam a despontar ao sabor do cantar dos pássaros que dançavam por ali, alegrando a nossa caminhada. Depois de termos subido durante algumas horas montanha acima, resolvemos sentar-nos à beira de uma laranjeira para retemperarmos as forças e comermos qualquer coisa. Quando nos preparávamos para retomar a caminhada, sentimos uns passos vindos do outro lado do riacho e notamos a presença de um homem já com uma certa idade que nos disse:
- Estava à vossa espera e já vi que se retemperavam da vossa viagem. Disse o velho homem.
Fiquei admirado. “Estava à nossa espera!” Como era possível? Saberia ele o que se passaria com a vida das pessoas? Seria um adivinho? Ter-lhe-iam dito que viriamos à sua procura? Não, ninguém lhe poderia ter dito que viríamos, pois só eu e Áquila sabíamos que o procurávamos. Foram mil e uma interrogações que de mim se apoderaram.
- Está tranquilo, Luar. Ainda bem que o teu amigo Áquila te trouxe até mim. Tens sorte de ter um amigo assim. Não faças com que o teu coração fique mais inquieto do que já está. Sossega! Disse o velho homem.
Sabia os nossos nomes! Será possível. Será que nos conheceu dalguma das vezes que desceu à aldeia? – Sossega o teu coração. Dizia para mim próprio. Olhei para ele com mais atenção e o seu olhar sereno apaziguou o meu coração.

- O teu olhar é sereno e o teu rosto é alegre. Disse-lhe.

- O meu olhar é sereno porque estou em paz e o meu rosto é alegre porque sou feliz. Respondeu.

- Mas não vive aqui sozinho? Perguntei-lhe.

- Tenho a companhia de tudo o que me rodeia na montanha. Tenho vivido por aqui os últimos anos da minha vida e aqui permanecerei até ao dia da minha partida para outras paragens para além das estrelas e do infinito azul do céu. Raras vezes desço à aldeia. Sou um peregrino das montanhas e é aqui que vivo feliz. Não quer dizer que não tenha tristezas e amarguras e que por vezes sofra, mas a alegria é mais saudável e a felicidade que temos dentro de nós é cada vez maior quando a partilhamos com outros. Vou confidenciar-te uma coisa: “o teu coração está dentro de ti, é teu e pode estar a sofrer alguma amargura; mas o teu rosto pertence aos outros: deve procurar transmitir alegria e paz.” Mas vamos ao que interessa. Fala-me do que está a ocupar a tua mente e o teu coração e que não te deixa estar em paz.
Não sabia como começar. Mas já não saberia ele tudo o que se passava comigo? Interrogava-me. Mas lá lhe contei a história do garimpeiro e do tesouro que ele queria descobrir e a minha tristeza por não ter partido com ele.
- Porque queres tu ir à procura de um tesouro se tens um dentro de ti? Porque procuras por outras paragens aquilo que está dentro de ti, e é o maior de todos os tesouros? Disse o velho homem.
- Tenho um tesouro dentro de mim? Não percebo o que queres dizer. Como posso ter, dentro de mim, um tesouro? Interpelei-o.
- Sim… Dentro de ti… Bem dentro de ti, tens o maior de todos os tesouros. Descobre-o… Pensa no amor dos que te rodeiam: os teus pais, a tua família, o teu amigo Áquila; pensa na liberdade… Na paz que respiras… Os dons que a vida te deu… Descobre tudo isso em ti. Não há maior tesouro. Foi dizendo. - E deixa-me dizer-te o mais importante: o tal tesouro que o garimpeiro partiu à descoberta, ligar-te-ia apenas ao que é temporário e passageiro; o tesouro que trazes bem dentro de ti, e se o souberes preservar, liga-te a tudo o que é eterno.
- O tesouro que poderia descobrir com o garimpeiro ligar-me-ia apenas ao que é temporário e passageiro; o tesouro que trago dentro de mim, se o souber preservar, liga-me a tudo o que é eterno. Repeti para comigo mesmo.

- Bem… Por hoje chega. Regressem à aldeia.
E foi assim que eu e o meu amigo Áquila conhecemos o velho homem da montanha a quem começamos a visitar quando queríamos e podíamos e o apelidamos de "Mestre".



R.M. in "Luar e o seu Tesouro"

domingo, 6 de novembro de 2011

O TESOURO!



O “garimpeiro” que tinha ficado hospedado em minha casa, partiu assim que a primavera se fez anunciar com o cantar dos primeiros pássaros e a neve já não se vislumbrava no alto das montanhas. – “Era a altura ideal para partir." Dissera quando se despediu, depois de pagar à minha mãe o que fora acordado no início do inverno para permanecer em nossa casa enquanto esperava pela primavera.

Enquanto esteve connosco, o “garimpeiro” falou-me dos seus sonhos de encontrar um tesouro, assinalado num mapa que me mostrou e que tinha encontrado, algures, numa das viagens que fizera por terras mais a sul. O mapa assinalava que o tesouro ficava para norte mas o seu desenho era muito confuso. Tentou convencer-me a partir com ele mas disse-lhe sempre que era ainda muito novo e que os meus pais precisavam de mim.

Mas o facto de não ter ido com o “garimpeiro” à procura do tesouro dos seus sonhos, não deixou de me inquietar. As palavras, “não queres partir comigo à procura do tesouro que está neste mapa”, que ele me dissera, assim como a imagem do mapa que ele tinha, não desapareciam da minha mente. Até a dormir, a imagem do garimpeiro, as suas palavras e o mapa, não deixavam a minha mente em paz.
À minha volta todos começaram a reparar no meu olhar inquieto e na tristeza que o meu rosto – diziam – fazia transparecer.

- Que se passa, Luar? Nunca te vi assim. Disse-me o meu amigo Áquila.

Expliquei-lhe o que se passava comigo mas ele não compreendia para que queria eu um tesouro. “Para viajar; conhecer novos mundos, comprar o que desejamos...” Ia-lhe dizendo mas não o convencia. Áquila, lembrou-se, então, que ouvira falar de um homem que vivia na montanha que ficava a oriente da aldeia – era a mais alta das montanhas que ali existia – e, dizia, era sábio e ajudava as pessoas que a ele recorriam a pedir ajuda e conselhos, ainda que ninguém soubesse bem onde morava. “Mora algures na montanha e só muito raramente descia à aldeia.”, era o que diziam.
E Áquila convenceu-me a procurar o tal sábio da montanha e prontamente disse que iria comigo. Resolvemos ir à sua procura na manhã seguinte. E assim foi. Com algum pão, um naco de presunto, algumas azeitonas e água, partimos logo que os primeiros raios da manhã surgiram.

Fomos subindo pela montanha, seguindo um trilho que existia à beira de um riacho que por ela serpenteava, apreciando o colorido das flores que começavam a despontar ao sabor do cantar dos pássaros que dançavam por ali, alegrando a nossa caminhada. Depois de termos subido durante algumas horas montanha acima, resolvemos sentar-nos à beira de uma laranjeira para retemperarmos as forças e comermos qualquer coisa. Quando nos preparávamos para retomar a caminhada, sentimos uns passos vindos do outro lado do riacho e notamos a presença de um homem já com uma certa idade que nos disse:

- Estava à vossa espera e já vi que se retemperavam da vossa viagem. Disse o velho homem.
Fiquei admirado. “Estava à nossa espera!” Como era possível? Saberia ele o que se passaria com a vida das pessoas? Seria um adivinho? Ter-lhe-iam dito que viriamos à sua procura? Não, ninguém lhe poderia ter dito que viríamos, pois só eu e Áquila sabíamos que o procurávamos. Foram mil e uma interrogações que de mim se apoderaram.
- Está tranquilo, Luar. Ainda bem que o teu amigo Áquila te trouxe até mim. Tens sorte de ter um amigo assim. Não faças com que o teu coração fique mais inquieto do que já está. Sossega! Disse o velho homem.

Sabia os nossos nomes! Será possível. Será que nos conheceu dalguma das vezes que desceu à aldeia? – Sossega o teu coração. Dizia para mim próprio. Olhei para ele com mais atenção e o seu olhar sereno apaziguou o meu coração.

- O teu olhar é sereno e o teu rosto é alegre. Disse-lhe.

- O meu olhar é sereno porque estou em paz e o meu rosto é alegre porque sou feliz. Respondeu.

- Mas não vive aqui sozinho? Perguntei-lhe.

- Tenho a companhia de tudo o que me rodeia na montanha. Tenho vivido por aqui os últimos anos da minha vida e aqui permanecerei até ao dia da minha partida para outras paragens para além das estrelas e do infinito azul do céu. Raras vezes desço à aldeia. Sou um peregrino das montanhas e é aqui que vivo feliz. Não quer dizer que não tenha tristezas e amarguras e que por vezes sofra, mas a alegria é mais saudável e a felicidade que temos dentro de nós é cada vez maior quando a partilhamos com outros. Vou confidenciar-te uma coisa: “o teu coração está dentro de ti, é teu e pode estar a sofrer alguma amargura; mas o teu rosto pertence aos outros: deve procurar transmitir alegria e paz.” Mas vamos ao que interessa. Fala-me do que está a ocupar a tua mente e o teu coração e que não te deixa estar em paz.

Não sabia como começar. Mas já não saberia ele tudo o que se passava comigo? Interrogava-me. Mas lá lhe contei a história do garimpeiro e do tesouro que ele queria descobrir e a minha tristeza por não ter partido com ele.

- Porque queres tu ir à procura de um tesouro se tens um dentro de ti? Porque procuras por outras paragens aquilo que está dentro de ti, e é o maior de todos os tesouros? Disse o velho homem.

- Tenho um tesouro dentro de mim? Não percebo o que queres dizer. Como posso ter, dentro de mim, um tesouro? Interpelei-o.

- Sim… Dentro de ti… Bem dentro de ti, tens o maior de todos os tesouros. Descobre-o… Pensa no amor dos que te rodeiam: os teus pais, a tua família, o teu amigo Áquila; pensa na liberdade… Na paz que respiras… Os dons que a vida te deu… Descobre tudo isso em ti. Não há maior tesouro. Foi dizendo. - E deixa-me dizer-te o mais importante: o tal tesouro que o garimpeiro partiu à descoberta, ligar-te-ia apenas ao que é temporário e passageiro; o tesouro que trazes bem dentro de ti, e se o souberes preservar, liga-te a tudo o que é eterno.

- O tesouro que poderia descobrir com o garimpeiro ligar-me-ia apenas ao que é temporário e passageiro; o tesouro que trago dentro de mim, se o souber preservar, liga-me a tudo o que é eterno. Repeti para comigo mesmo.

- Bem… Por hoje chega. Regressem à aldeia.

E foi assim que eu e o meu amigo Áquila conhecemos o velho homem da montanha a quem começamos a visitar quando queríamos e podíamos e o apelidamos de "Mestre".



R.M. in "Luar e o seu Tesouro"

sábado, 5 de novembro de 2011

SER!


Quando nos comunicaram que o velho Mestre estava prestes a morrer, muitos dos que com ele tinhamos aprendido a sabedoria da vida, juntamo-nos para ouvir as suas últimas palavras.

Esboçou um sorriso com o seu olhar terno e límpido de sempre e, no seu jeito sereno e simples, disse:
- Era uma vez...
Depois de um breve silêncio, e como o Mestre nada mais dizia, um de nós falou:
- Nada mais dizes?
Respondeu:
- E não basta, SER, uma vez?
Então, o velho Mestre levantou-se, pegando no seu cajado, e subiu a montanha. Foi a última vez que o vimos.
Regressei para casa e no meu coração ecoavam as suas últimas palavras: "E não basta, SER, uma vez?"
Afinal não era tudo o que ele nos tinha ensinado? Sim. O nosso tesouro e a nossa felicidade está no SER!
E essa "vez" a que somos chamados a SER na oportunidade que a vida nos oferece - SER toda uma vida - deveria ser a nossa missão; e SER em plenitude esta "vez" - porque não há outra -, ... e isso bastaria!

R.M. in "Luar e o seu Tesouro"

sábado, 22 de outubro de 2011

MOMENTOS!

Hoje, o “roteiro” da caminhada foi quase o mesmo. Acrescido de uns quilómetros: até à Aguda.


A manhã não foi uma daquelas de verão como a da semana passada. Mas esteve agradável. Bastante agradável, até, quando o sol libertava os seus braços entre as nuvens e nos acariciava com o seu calor, ou quando as nuvens permitiam total liberdade ao sol e nos abraçava mais intensamente. Apenas a ligeira neblina que se fazia sentir tornava esse abraço menos caloroso.

A sinfonia amena do mar, do vai e vem das suas ondas, fez-se sentir durante todo o percurso.
E o cenário colorido teve quase os mesmos tons do sábado passado. Só lá faltaram aqueles corpos estendidos ao sol ao longo da praia, retocando o bronze que ainda restava do verão, e aqueles aventureiros que se banhavam no mar.

Hoje, na areia e à beira do mar, só mesmo alguns passeantes, poucos, e os pescadores que se estendiam ao longo do percurso. Contei onze. Todos sozinhos, exceção feita a um grupo de três. E só eles saberão explicar esta “aternuração” pela pesca e pelo mar, que os faz ficar horas a fio, ali, de pé, pacientemente à espera que algum peixe se encante com o isco. Uma coisa é certa: não sofrem de stress. Lá isso não!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"RETALHOS DE VIDA!"


Hoje encontrei uma aluna a chorar: tinha feito o teste de Língua Portiguesa a lápis, depois passou a tinta e isso fez com que não terminasse a composição. Levei-a à professora e tudo se resolveu. Este acontecimento trouxe-me à memória um pensamento de André Rossato:
"Não faças da tua vida um rascunho,
pois pode não haver tempo de passar a limpo."

domingo, 16 de outubro de 2011

NOTAS SOLTAS com RICHARD BACH!


Este "poste" é para o Diogo e a Vânia. Eles sabem porquê.

É também para mim e para Émy, minha esposa, que me atura e "aternura" há vinte anos.
Que seja uma forma de renovarmos a crença no amor que entre nós existe.
Este "poste" é composto por excertos que eu e a Émy retiramos dos livros “Ponte para a eternidade” e “Um”, de Richard Bach. Estes excertos foram incluídos na parte final do folheto com as canções que cantamos no nosso casamento. Aqui ficam:

“Eu existo
Tu existes
E o amor é tudo o que conta”
“Acho que duas pessoas podem mudar juntas,
Crescer juntas
E enriquecerem-se juntas…
A soma de “UM” e “UM”,
Se forem os “UNS” certos,
Pode ser infinito.”
“Uma ALMA GÉMEA é alguém em cujas fechaduras as nossas chaves servem e que possui chaves para as nossas fechaduras. Quando nos sentimos suficientemente seguros para abrir as nossas fechaduras, os nossos EUS mais verdadeiros saem e podemos ser completa e honestamente quem somos; podemos ser amados pelo que somos e não pelo que fingimos ser. Cada um revela a melhor parte do outro. Haja o que houver de mau à nossa volta, com essa pessoa estamos no nosso paraíso. A nossa ALMA GÉMEA é alguém que partilha os nossos mais profundos anseios, o nosso sentido de direção. Se formos dois balões e a nossa direção for para cima, tudo indica que encontramos a pessoa certa.
“Mas se concordamos ou não, não interessa; como não interessa saber quem tem razão. O que interessa é o que se passa entre nós… Mudamos continuamente, crescemos, amamo-nos cada vez mais? Isso é que interessa.”
“Claro que existe destino, mas o destino não vos empurra para onde não quereis ir. Sois vós que escolheis. Cabe-vos escolher o vosso destino… Orientem-se pelo amor.”
“Não há erros. Os acontecimentos que atraímos para nós, por muito desagradáveis que sejam, são necessários para aprendermos o que precisamos de aprender, demos os passos que dermos, são necessários para atingirmos os lugares onde queremos chegar.”

P.S.: A foto que acompanha esta nota era a capa do folheto, muito artesanal. Hoje as coisas são mais elaboradas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tranströmer Tomas

Confesso que não conhecia o novo galardoado Prémio da Literatura Tranströmer Tomas. Pelas dicas do meu amigo E.I. é um extraordinário poeta.  Aqui deixo um dos poemas que gostei, transportado do cantinho do E.I.:

Kyrie

A minha vida às vezes abria os olhos no escuro.
Uma sensação de multidões arrastando-se por ruas,
cegas e sem descanço, no caminho para um milagre,
enquanto eu fico aqui, invisível.
Como uma criança que adormece aterrorizada
à escuta dos passos pesados do coração,
até que a manhã ponha o seu raio de luz nos fechos
e as portas da escuridão se abram.

(Tradução de Vasco Graça Moura)

domingo, 17 de julho de 2011

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DEVERES HUMANOS? PORQUE NÃO?

Da crónica semanal do Miguel Santos Guerra de ontem, no seu "El Adarve", sob o título "Elogio da responsabilidade", destaco o parágrafo que aqui vos deixo e convido-vos a ler o texto na íntegra.

"El filósofo y escritor Jostein Gardner se plantea la siguiente cuestión: así como el siglo XX fue el de los Derechos Humanos, ¿no debería ser el siglo XXI aquel en el cual se proclame la Declaración de los Deberes Humanos? Ojalá. Porque tengo la impresión de que la balanza está descompensada. Las manifestaciones, las demandas, las exigencias me parecen magníficas. Hay que exigir los derechos. Pero hace falta también hacer hincapié en la necesidad de que cada cual cumpla sus obligaciones. La democracia se apoya sobre esos dos pilares: la garantía de los derechos y el cumplimiento de los deberes."

Texto na íntegra, aqui

quarta-feira, 13 de julho de 2011

UBUNTU: "SOU QUEM SOU, PORQUE SOMOS TODOS NÓS!"

O texto que a seguir vos deixo, chegou-me por mail. Para a vida em família, para os grupos de jovens, para as equipas de trabalho, para uma ideia de Europa... Enfim... Um momento de reflexão. Aqui fica o texto:

A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), presenteou-nos com um caso de uma tribo da África chamada Ubuntu.

Contou que um antropólogo estudava os usos e costumes da tribo e, quando terminou o seu trabalho, teve de esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto, de volta para casa. Sobrava ainda muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo. Então, propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas, na cidade. Colocou tudo num cesto bem bonito, com um belo laço de fita, e colocou debaixo de uma árvore. Então, chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam correr até o cesto. A que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças posicionaram-se na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "já!", instantaneamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram a correr em direcção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como é que uma de nós poderia ficar feliz, se todas as outras estivessem tristes?"

Ele ficou desconsertado! Meses e meses trabalhando, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"

domingo, 10 de julho de 2011

"NADA ME FALTARÁ!" - MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO

Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.


Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.

Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.

Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.

Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.

Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.

Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.

A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.

Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.

Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.

Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.

Texto de Maria José Nogueira pinto, retirado de aqui

sexta-feira, 1 de julho de 2011

LAR JUVENIL DOS CARVALHOS -25º ANIVERSÁRIO.

A entrevista que aqui vos deixo, já foi feita há quase 10 anos e publicada na nossa "GERAÇÃO CIC" e que eu aqui reedito, não só para recordar mas também, para os que ainda não conhecem o Lar Juvenil dos Carvalhos, que hoje celebra os seus 25 anos, o fiquem a conhecer. A entrevista foi feita pelos alunos do 5º e 6º anos de escolaridade, inscritos nos Clubes de Audiovisual e Jornalismo, Academia de Talentos e Leitura, no dia 22 de Outubro de 2003. Retomamos, pois, o trabalho dos alunos:

Quando chegámos ao Lar fomos recebidos por um dos seus monitores, a seguir dirigimo-nos para uma sala de reuniões, na qual o Pe. Marçal, responsável máximo do Lar, nos dirigiu umas breves palavras acerca dos objectivos do Lar e do seu funcionamento. Houve ainda um momento significativo, a oferta de alguns livros ao Lar Juvenil pelos alunos do Clube de Leitura.
A seguir o momento mais esperado: fomos visitar as instalações novas do Lar acompanhados pelo Sr. Pe. Marçal e por alguns monitores. Visitámos a sala de Jantar, a sala de convívio e os quartos dos jovens que frequentam o Lar.

No final da visita regressámos à sala de reuniões, onde o Pe. Marçal nos dirigiu mais algumas palavras no sentido de nos despertar a consciência em ordem à ajuda que a sociedade pode dar a esta Instituição, pois dessa ajuda depende muito a educação e formação dos jovens que por necessidade a ela recorrem.


C. J. – Que avaliação faz desta grandiosa obra?

P.M. – Que valeu a pena lutar por muito tempo para concretizar um sonho, para que as crianças que têm menos possibilidades em termos, digamos, sociais, tenho aqui no Lar Juvenil uma dimensão igual à das outras crianças, pois eu não sabia fazer uma casa para crianças com menos possibilidades, ou seja, a vida para mim é igual em todos.

C. J. – Foi difícil construir esta obra?

P. M. – Basta dizer que foram precisos 17 anos, não é só esta construção que começou no ano 2000, mas toda a preparação daquilo que seria melhor: construir uma parte nova ou reconstruir a parte já existente. É preciso conhecer muitas pessoas, o Ministério, o Governo Civil, para que cada processo tivesse o melhor andamento, foi o tempo que nos trouxe até aqui.

C. J. – De uma forma geral, qual o objectivo principal do Lar Juvenil dos Carvalhos?

P. M. – É acolher crianças em risco, crianças, adolescentes e jovens, vocês conhecem alguns mas nós neste trabalho conhecemos muitos jovens que precisam realmente de ser ajudados, porque é um tempo fundamental da vida, ou agora ou nunca.

C. J. – Fale-nos um pouco do papel da Igreja na concretização de projectos como este.

P. M. – Eu acho que vocês sabem, que a Igreja, como é um Corpo muito Unido, tem um objectivo e uma Missão que é estar junto dos mais pobres e dos mais necessitados, por isso a Igreja através das Instituições aproxima-se sempre destas situações para determinar um caminho e uma resposta. A Igreja é um Corpo pela amizade e pela palavra enviada aos pobres, aos “encaminhados e desencaminhados da vida” e por isso também é a nossa missão. Eu não estou aqui com uma missão pessoal, sou Padre Missionário, que é aquele que dá a sua vida aos outros.

Vocês vão celebrar este mês no Colégio o dia de S. António Maria Claret, um homem que “arde em caridade, abrasa por onde passa, nada o detém, goza das privações, procura os trabalhos, compraz-se nas calúnias e o seu único pensamento é seguir e imitar Jesus Cristo”, como Missionário é isso que faço.

C. J. – E em relação à educação, a Igreja tem desempenhado um papel indispensável na formação dos jovens de hoje?

P. M. – Eu penso que sim, até porque eu estive como Pároco de Pedroso durante 13 anos e as pessoas que dinamizavam a Paróquia eram os jovens, eu consegui unir a mim uma multidão de jovens, eles estão vocacionados para o serviço, para ajudar os outros, por conseguinte para nos ajudar na nossa missão que é a mesma da Igreja.

C. J. – Os jovens reconhecem o esforço desenvolvido pela Igreja na sua formação?

P. M. – Sim, penso que sim, porque com eles podemos construir muitas coisas. Existe ainda um bocado de obra por acabar, aquela casa que está lá em baixo à entrada que se vai chamar “Casa do Pão”, estive a conversar com o empreiteiro, não vamos buscar dinheiro a lado nenhum, vamos nós juntamente com os jovens tentar fazer mais construções. Quando cá cheguei, reparei que existem muitos jovens que estão como voluntários, isto é um sinal de reconhecimento por aquilo que foi feito por eles. É uma forma de estarem ligados a este projecto. O poder da vida é muito forte, por isso também eles se disponibilizam para ajudarem os mais necessitados, proporcionam eles agora o que lhes foi proporcionado no momento mais importante das suas vidas. São também eles uma ajuda às famílias.

terça-feira, 21 de junho de 2011

POR UM MUNDO MELHOR (II)

A nova Presidente da Assembleia da República Portuguesa: «Ou decidimos melhorar o mundo ou teremos de perguntar como se dorme o nosso sono» Gostei!

Assunção Esteves eleita presidente da AR com mais de 80% dos votos - Política - Sol

POR UM MUNDO MELHOR!

Na nossa "luta" POR UM MUNDO MELHOR, fazem sentido as palavras de Madre Teresa de Calcutá:

"Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano mas, sem ele, o oceano seria menor."

sábado, 30 de abril de 2011

PARA TI, MÃE!



ÊXTASE

- Não vês o céu, como está lindo?
- Vejo.
- Não vês o sol, como ele brilha?
- Vejo.
- Não vês os campos, tão floridos?
- Vejo.

- Mas para onde é que estás a olhar?

- Para ti, Mãe.

Lopes Morgado
in Mulher Mãe

segunda-feira, 21 de março de 2011

CONFIA EM DEUS!

Não te inquietes com as dificuldades da vida.
pelos seus altos e baixos, pelas suas decepções,
pelo seu futuro mais ou menos sombrio.

Quer o que Deus quer.

Oferece-lhe no meio das inquietações e dificuldades
o sacrifício da tua alma simples que,
aceita os desígnios da sua providência.

Pouco importa que te consideres um frustrado
se Deus te considera plenamente realizado,
a seu gosto.

Perde-te confiando cegamente nesse Deus
que te quer
e que chegará até ti, mesmo que nunca o vejas.

Pensa que estás nas suas mãos,
tanto mais seguro,
quanto mais decaído e triste te encontres.

Vive feliz. Vive em paz.

Que nada seja capaz de tirar-te a paz.
Nem o teu cansaço. Nem as tuas falhas.
E no fundo do teu coração coloca
tudo aquilo que te enche de paz.

Por isso,
quando te sintes desanimado e triste,
Adora e confia.

(Teilhard de Chardin)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DO ELOGIO DO EDUCADOR!

"No passado do poeta que escreveu versos sublimes, há quase de certeza um professor que o obrigou a exercitar-se na sintaxe, que o forçou a corrigir vezes sem conta frases mal escritas, que ralhou com ele quando se desleixava. Na juventude... daquele que escreveu uma bela sinfonia houve muito possivelmente uma professora, talvez já velhota, que lhe explicou cem vezes, pacientemente, qual era a forma correcta de colocar as mãos quando se sentava ao piano.

O poeta e o músico tiveram os seus nomes escritos na História, mas ninguém recorda quem foram os seus mestres. No entanto, há uma beleza imensa nesse passar despercebido, nesse ter rasgado as mãos ao trabalhar nos escuros alicerces de um mundo melhor. Uma beleza que só é apreciada pelas grandes sensibilidades, como são as daquelas pessoas que se dedicaram de corpo e alma à educação. Uma boa parte da humanidade prefere aquilo que dá nas vistas ou produz frutos imediatos…"
 
(Paulo Geraldo)

sábado, 22 de janeiro de 2011

CREDO PEDAGÓGICO


Um texto que aqui já fiz referência, e que o JMA já denominou como um "Belo Credo Pedagógico", e que volto a trazê-lo como a "outra face" do vídeo que ontem coloquei no "facebook".


Não é à pancada,
Estou convencido que não é à pancada.
E embora haja quem pense
Que dar confiança é arriscado
Eu creio que o único caminho é o amor.

Não me preocupam nada temores do género:
“- e lhes damos uma mão querem logo o braço”.
“- Comem-nos as papas na cabeça”.
“- Pela caridade entrou a peste no mundo…”


Não me preocupam, primeiro
Porque não é a dignidade do professor
O supremo valor da escala educativa.
Não me preocupam, depois,
Porque o que interessa,
Mais do que as manifestações exteriores de respeito,
É o verdadeiro respeito interior.
Não me preocupam, finalmente,
Porque creio que é mais efectivo,
Muito mais educativo e mais belo,
Ver como as pessoas
Aprendem a amar e a confiar nas pessoas,
Ver como aprendem a ser mais felizes.

Não temo que me comam as papas na cabeça,
Que abusem da minha confiança.
Porque é preferível rirem-se
(se for esse o caso)
Do que serem vítimas da nossa insensibilidade,
Do nosso rigor
Da nossa amizade.
Porque a fortaleza está no amor
E não na imposição da disciplina.

Não nos tornamos mais fortes por mantermos a ordem,
Por as crianças “se não mexerem”,
Por se saber perfeitamente quem detém a autoridade.

Seremos fortes se não nos preocupamos em sê-lo,
Se verdadeiramente amamos os outros,
Se fizermos nascer no seu íntimo
O desejo de serem melhores,
De serem solidários e respeitadores,
De serem amantes da justiça
E da ordem que nasce da justiça e não da força,
E não do temor,
E não da violência.
Só neste clima
É que as pessoas aprendem a ser livres
A ser melhores.

Santos Guerra
in Uma pedagogia da libertação
CRIAPASA