sábado, 3 de maio de 2008

ENTERRO DO "NÃO CONSIGO"


Esta história foi contada por Chick Moorman e aconteceu numa escola primária do estado de Michigan, Estados Unidos.


Ele era supervisor e incentivador das experiências que ali eram realizados e um dia viveu uma experiência muito instrutiva, conforme ele mesmo narrou:


Sentei-me num lugar vazio no fundo da sala e assisti. Todos os alunos estavam a trabalhar numa tarefa, preenchendo uma folha do caderno com ideias e pensamentos. Uma aluna de dez anos, mais próxima de mim, estava a encher a folha de "não consigos".


"Não consigo chutar a bola de futebol além da segunda base."
"Não consigo fazer divisões longas com mais de três números."
"Não consigo fazer com que a Debbie goste de mim."


Caminhei pela sala e notei que todos estavam a escrever o que não conseguiam fazer.


"Não consigo fazer dez flexões."
"Não consigo comer um biscoito só."


A esta altura, a actividade despertara a minha curiosidade, e decidi verificar com a professora o que estava a acontecer mas percebi que ela também estava ocupada a escrever a sua lista de "não consigos".


Frustrado nos meus esforços em determinar por que os alunos estavam a trabalhar com negativas, em vez de escrever frases positivas, voltei para o meu lugar e continuei com as minhas observações.
Os estudantes escreveram durante mais dez minutos. A maioria encheu a página. Alguns começaram outra.
Depois de algum tempo, os alunos foram instruídos a dobrar as folhas ao meio e colocá-las numa caixa de sapatos, vazia, que estava sobre a mesa da professora.
Quando todos os alunos tinham colocado as folhas na caixa, Donna, a professora, acrescentou as suas, tapou a caixa, colocou-a debaixo do braço e saiu pela porta do corredor. Os alunos seguiram-na. E eu segui os alunos.
À frente, a professora, entrou na sala do zelador e saiu com uma pá.
Depois, seguiu para o pátio da escola, conduzindo os alunos até ao canto mais distante do pátio do recreio. Ali começaram a cavar.
Iam enterrar os seus "não consigos"! Quando a escavação terminou, a caixa de "não consigos" foi depositada no fundo e rapidamente coberta com terra.
Trinta e uma crianças de dez e onze anos permaneceram de pé, em torno da sepultura recém-cavada.
Donna então proferiu louvores.
"Amigos, estamos hoje aqui reunidos para honrar a memória do 'não consigo'.
Enquanto esteve connosco aqui na Terra, ele tocou as vidas de todos nós, de alguns mais do que de outros.
O seu nome, infelizmente, foi mencionado em todas as instituições públicas - escolas, câmaras municipais, assembleias legislativas e até mesmo no Palácio de S. Bento.
Providenciámos um local para o seu descanso final e uma lápide que contém seu epitáfio. Ele vive na memória de seus irmãos e irmãs 'eu consigo', 'eu vou' e 'eu vou imediatamente'.
Que 'não consigo' possa descansar em paz e que todos os presentes possam retomar as suas vidas e ir em frente, na sua ausência. Amém."
Ao escutar as orações entendi que aqueles alunos jamais esqueceriam a lição.
A actividade era simbólica: uma metáfora da vida. O "não consigo" estava enterrado para sempre.
Logo após, a sábia professora encaminhou os alunos de volta à classe e promoveu uma festa.
Como parte da celebração, Donna recortou uma grande lápide de papelão e escreveu as palavras "não consigo" no topo, "descanse em paz" no centro, e a data abaixo.
A lápide de papel ficou pendurada na sala de aula de Donna durante o resto do ano.
Nas raras ocasiões em que um aluno se esquecia e dizia "não consigo", Donna simplesmente apontava o cartaz “descanse em paz”. O aluno então se lembrava que "não consigo" estava morto e reformulava a frase.


Eu não era aluno de Donna. Ela era minha aluna. Ainda assim, naquele dia aprendi uma lição duradoura com ela.


Agora, anos depois, sempre que ouço a frase "não consigo", vejo imagens daquele funeral da quarta classe. Como os alunos, eu também me lembro de que "não consigo" está morto.


(Baseado num texto de Chick Moorman
do livro Canja de Galinha para a alma,
de Jack Canfield & Mark Victor Hansen)


E que me foi enviado por Carmo Cruz, há alguns dias atrás, quando ainda não tinha dado à luz o seu “piruetas de avó”.

12 comentários:

EMD disse...

Bela imagem do que é a escola: um lugar em que todos aprendem, nomeadamente a conquistar aparentes impossíveis.
Bfs,Raul.

Fátima André disse...

Extraordinariamente bela esta mensagem! Um grande desafio para abraçar sem reservas!

CCz disse...

Gostei da mensagem.

CCz disse...

Caro Raúl não é piruetas de avó, é avó Pirueta.
.
Imagine que tem dois filhos pequeninos tipo 1,5 e 4,5 anos. Têm as duas avós, como as distinguir de uma forma fácil? Uma delas tem uma gata chamada Pirueta... huummm, ... gotcha!
.
E como é que os mesmos miúdos chamam ainda hoje à bisavó?
.
O qué uma bisavó? É uma avó 2 vezes. OK fica "Avó 2 vezes"
.
ehehehe Podemos não ser utopistas, mas gostamos da brincadeira!!!

BC disse...

O texto está fantásticooooo....!
Quantas vezes nós ouvimos dizer essa frase "não consigo fazer"(especialmente às crianças),se bem que nós também o digamos muitas vezes e eu assumo, ninguém é perfeito.
Mas, quando uma criança nos diz "não consigo fazer",ao dizermos
"claro que consegues", já é 50%, para chegarem lá, o incentivo é tudo, e quem não precisa de ser incentivado e enterrar os seus "não consigo"....
Que confusão!!!

Anónimo disse...

Senhor Engenheiro, que honra lê-lo aqui no blogue do Sorriso Imenso! Quem havia de dizer que a Avó Pirueta fazia destas, não é verdade? Pelo sim, pelo não, recomendo-lhe que vá a hppt://avopirueta.blogspot.com Até que enfim, diz ela, que conseguiu esconder de si um segredo!
Você tinha que gostar da mensagem: quando nasceu a sua Mãe enterrou logo todos os "não consigos" que havia! Disse-me ela e eu acredito. Um abraço da Voluntária Angolana (pode ser um beijinho?)

ematejoca disse...

Uma história mesmo ao meu gosto.
Leia-a, Raúl, na classe do Luís (Gui), senao leio-a eu, quando ele vier cá no Verao.
Histórias como estas já sao o meu mundo.
Saudacoes de Düsseldorf!

Elsa C. disse...

Há textos que me cativam pela simplicidade das palavras, pela intensidade das mensagens. Este é um deles.
O "não consigo" parece estar associado à tibieza, à ausência de vontade e de esforço em enfrentar e suplantar os obstáculos com que cada um se depara.
Desde o nascimento somos um amontoado de "não consigos": não consigo alimentar-me, não consigo falar, não consigo andar...É como se a negatividade fosse característica essencial da natureza humana.
A existência, plenamente vivida, é refractária à indiferença: mobilizadora de acções, edificadora de projectos.
A caminhada do não ser ao (ser) que somos é afirmação da nossa alteridade, mesmidade e unicidade.
Parabéns pelo texto, Raúl Martins.

Professorinha disse...

Ah... bela ideia essa de enterrar o não consigo... Um dia, quando voltar a ter direcção de turma, hei-de lembrar.me deste texto...

Fica bem

besbertocharrua disse...

ó amigo ôje na cunsigo memo tár de bem ca já ma xatiei munte e na leve a mál cagente ó depois cunversa.
um abrace munte amigo

Raul Martins disse...

Voluntária Angolana! Já várias me tinha interrogado lá prás "bandas" do engenheiro sobre quem seria esta personagem. Pressentia quem era. Agora já não tenho dúvidas. Ai as "piruetas"! Ai as "piruetas"!

Realmente é uma honra ter o CCZ por aqui. Tenho aprendido muito com ele e certamente que continuarei a aprender, e de que maneira!


Teresa, alguma vez tinha que ter alguma coisa "mais do seu mundo". Ainda bem. Aceito o desafio. Vou ler na turma do Gui este texto.

Elsa, é verdade, temos que aprender a caminhar do não ser para o ser. Bela reflexão! Com pano para mangas! E temos de aprender a começar pelo fim como nos diz o CCZ em: http://balancedscorecard.blogspot.com/2008/05/comear-pelo-fim.html
Penso que vai gostar do texto.
Que aconselho a todos. Na linha do "olhar o futuro", também do CCZ que aqui deixei uns andares mais abaixo.

Obrigado EMD (e, mais uma vez, pelo "sorriso" que foi o meu texto no "Breves"), Fátima ( também pela "partilha" do novo prémio que recebeste)e Isabel...
pela vossa presença amiga por aqui.

Obrigado, também, "professorinha". Já por lá passei hoje e vi que também continuas atarefada com os trabalhos de mestrado, não é? Também eu! E nós, hoje, também nos queixamos mas eles não nos ouvem. Paciência!

E por fim Cumpadre Besberto, a vida é simples e não a podemos complicar. Isto de visitarmos os amigos é UM DIREITO, não é um dever. Por isso devemos aparecer quando nos apetece e queremos. Eu é que não passo sem lá ir à sua "quinta" para ficar cheio de enrgia.

Anabela Magalhães disse...

E eu, que só agora aqui cheguei só quero dizer que gostei do que li. E que cada vez mais enterro os meus "Não consigo".
Obrigada, Raul, pela partilha deste texto.