sexta-feira, 25 de abril de 2008

O MEU 25 DE ABRIL


Lembro-me, era um rapazinho, que a minha avó, quando viu o padre António a passar, no seu passo curto mas ligeiro, no outro lado da rua, disse que ali ia um homem com as medidas perfeitas. Ela, receando que eu interpretasse aquelas palavras de maneira menos apropriada, falou-me da Cidade Santa do Livro do Apocalipse, dizendo-me que a Cidade era perfeita porque no seu comprimento, na sua largura e na sua altura, as medidas eram todas iguais. A cidade perfeita. Medidas iguais. E assim era o padre António: um homem com as medidas perfeitas; um homem de uma grandeza interior (largura), de uma dedicação, sem reservas, a todos os que dele se abeiravam e precisavam da sua ajuda (comprimento), e era um homem de Deus (altura).
Hoje, é a este retalho de vida que eu me agarro para falar do 25 de Abril que comemora o seu 34º aniversário. Para falar do meu 25 de Abril: Um 25 de Abril com as medidas perfeitas.
O meu 25 de Abril não é o regresso caloroso, a casa, depois de anos de medo, stress, angústia, a fugir das armas e dos canhões da guerra colonial; o meu 25 de Abril não é o respirar de alívio porque se romperam os grilhões das cadeias para aqueles que lutavam contra a ditadura e ansiavam pela liberdade; o meu 25 de Abril não é o término das filas infindáveis de quem esperava um naco de pão para poder sobreviver; o meu 25 de Abril não é o poder escrever sem censura; o meu 25 de Abril não são as conquistas que o Poder Local conseguiu para melhor servir as populações; o meu 25 de Abril não são os militares de Abril e o Movimento das Forças Armadas e a sua coragem, generosidade e seriedade.
Essas são realidades do passado, conquistas que não esquecemos e agradecemos aos que por isso lutaram e deram a própria vida e aqui prestamos a nossa homenagem. É tempo de saber retirar do 25 de Abril outras frentes de batalha para eu possa cantar aos meus filhos um 25 de Abril com as medidas perfeitas. Um 25 de Abril em ordem a despertar e promover o desenvolvimento integral da nossa sociedade. Uma sociedade em que todas "as medidas" lhe sejam dadas de forma equilibrada ou seja, iguais, para que os meus filhos, os meus netos e os filhos dos meus netos, cresçam e exerçam o seu papel na sociedade de forma equilibrada e empreendedora.
O meu 25 de Abril é a esperança numa sociedade com a "largura" ideal, a tal dimensão individual. É o aperfeiçoamento pessoal, interior; a descoberta e o desenvolvimento das capacidades físicas, intelectuais e afectivas de todos; a liberdade responsável, a maturidade em ordem a tomar decisões pessoais, a persistência perante os problemas, a abertura ao futuro, o explorar ao máximo as qualidades das pessoas: "Que não se deixe por explorar nenhum dos talentos que constituem como que tesouros escondidos no interior de cada ser humano", nas palavras de Delors.
O meu 25 de Abril é a esperança numa sociedade com o "comprimento" ideal: A dimensão comunitária. A abertura ao que nos rodeia. "Trata-se do aprender a viver juntos, desenvolvendo o conhecimento acerca dos outros, da sua história, tradições e espiritualidade." Uma sociedade que invista numa educação que incuta nos jovens o ideal democrático, promovendo neles a tolerância e o respeito pela cultura, a religião e os valores de cada povo.
O meu 25 de Abril é a esperança numa sociedade com a "altura" ideal: A dimensão transcendental. Como cristão, o meu 25 de Abril não pode abdicar desta dimensão. Ignorar esta dimensão, seria amputar o homem da sua dimensão especificamente humana: a transcendência. O trabalho, do merceeiro ou do poeta, do pedreiro ou do político, do cantor ou do professor, é participação na criação divina, que não está terminada e pela qual sou responsável. Ou seja, os valores mais urgentes da nossa sociedade, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a paz, a democracia, também vistos à luz do Evangelho.
O meu 25 de Abril é procurar cultivar aquelas três dimensões de forma equilibrada, porque acredito que um projecto que não as englobe harmoniosamente não serve a democracia e não prepara os cidadãos para um compromisso sério na sociedade. É não apostar no futuro que, como há tempos ouvi do nosso cientista maior, Carvalho Rodrigues, "é muito novo, porque é muito antigo, e vem em todos os livros sagrados: É que, um dia, nós, em vez de comunicar, vamos comungar. E nesse dia, o bem de um é o bem de todos, o mal de um será o mal de todos".
E, afinal, o meu 25 de Abril, também, é muito novo porque é muito antigo; o meu 25 de Abril, afinal, não é tão diferente daquele de 74; afinal, o meu 25 de Abril, não é tão diferente daquele que muitos viveram, porque, afinal, o 25 de Abril diz-nos que o bem de um é o bem de todos, o mal de um será o mal de todos. Que se faça o 25, em Abril, em Maio ou em Dezembro. O 25, o tal de Abril, será sempre quando e o que nós quisermos. O meu e o vosso que, afinal, não são tão diferentes!

6 comentários:

Carmo Cruz disse...

Raul,
Gostei do seu 25 de Abril. E, como você, ainda não desesperei das "medidas perfeitas". Sorte sua com uma Avó assim! Também gostei do texto "emprestado" que está antes... Li-o com uma sensação de já o ter sentido. Será aquele outro sentido que temos vindo a perder e ainda só se conserva em algumas pessoas e/ou situações? Uma sugestão: vá ver "O meu 25 de Abril" do emprestador...
Abraço, Carmo

besbertocharrua disse...

ó cumpadre sa ma premite na é ca gostei memo munte da su manera de screver? ô cá só tenho a 4ªclace e ós 18 anos antes da tropa e gosto munte de ler e aprinder e vocemecê qué porfessor e eu cá tamém vô á missa ca nha maria na é todos os domingos mas prontos. na precebi dalgum palavriado mas pormeto ca vô ver no dicionairo qué antigue mas tem lá tudo e na sei se tem "tarcidentale"
um abrace daqui do besberto

Raul Martins disse...

Ó cumpadre BESBERTO, quem tem de usar dicionário somos todos nós cá de casa. Estive a ler para a família alguns textos do seu blog e foi um fartote de riso. Até a minha sogra riu desalmadamente.
Um abraço do Norte

Anabela Magalhães disse...

Belíssimo texto. Gostei tanto que já passei pos ele duas vezes. E permaneci.
Obrigada, Raul.

Anabela Magalhães disse...

É "por ele", evidentemente! :)

Raul Martins disse...

Obrigado, Anabela. Também gostei muito do texto que ontem li sobre o 25 de Abril do Maracujá. Ele continua a evoluir e estou de acordo consigo quando diz que o vai utilizar na sua aula de segunda-feira. O Maracujá merece-o e, mais do que isso, é uma reflexão muito pertinente.