terça-feira, 22 de abril de 2008

DIA DA TERRA



“A reverência ao Homem
não pode separar-se da reverência
ao que está abaixo dele (a Natureza)
e ao que está acima dele (Deus)”

Goethe



A "ARTE DO PASTOR"

O mundo não é só laboratório
mas também é jardim;
é lugar de recreio e gratuidade.

Desde sempre o Homo Sapiens procurou modificar o ambiente a seu favor. Porém, até ao século XIX, a acção do homem na natureza foi relativamente limitada e deixou intacto grande parte do planeta. Em contrapartida, após a industrialização, o homem tornou-se um perigo sério para a natureza e, por conseguinte, para si mesmo.

Actualmente, a humanidade – face ao crescimento acelerado que se tem verificado nos últimos anos – enche o ambiente, no qual vive com as outras criaturas, com os resíduos daquilo que produz e consome, inquinando os elementos que promovem a vida do nosso planeta, sobretudo a água e o ar. Além dessa crise ecológica, deparamo-nos, também, com uma crise energética e de matérias primas.

E eu, como cristão, que reflexão posso fazer neste contexto? Quantas vezes não pronuncio a fórmula confessional “Creio em Deus-Pai, Criador do Céu e da Terra...”? O que queremos dizer quando confessamos que o Universo é Criação de Deus? Qual o nosso contributo e a nossa responsabilidade?


Antes de mais, o Universo é um dom de Deus para o Homem, que ama e dá valor à sua Obra: “Deus vendo toda a sua obra considerou-a muito boa” (Gen. 1,30). Mas é, também, missão para o Homem: “...Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra.”(Gen. 1,28); “...O Senhor colocou o Homem na Jardim do Éden, para o cultivar e para o guardar...”(Gen. 2,15).


Nestas citações, realçamos algumas palavras que consideramos fundamentais: Por um lado, enchei e dominai – o homem que deve dominar e sujeitar a natureza. Não colocamos em causa a subordinação de toda a Criação ao Homem. Por outro lado, cultivar (preparar a terra para que ela produza; educar; conservar; dedicar-se, isto na conjugação reflexa) e guardar (proteger; pastorear), ou seja, o homem é chamado à “arte do Pastor” de que falou Sócrates.

Eis, pois, a nossa responsabilidade sobre o Universo. E é nesta linha que tem de ser entendido o progresso humano.

A Criação não é algo de estático, feito de uma vez para sempre, mas que tem de ser visto na sua dinâmica histórico-social em que o Homem é chamado a exercer o seu papel criador a fim de aperfeiçoar, desenvolver e construir uma sociedade digna de o acolher. Assim, o verdadeiro progresso humano, visto à luz do mistério da Criação, será aquele que permita ao homem o seu desenvolvimento e a plenitude da sua vocação integral. Tal como a Criação, o progresso do mundo está destinado para a felicidade do homem e não para a sua degradação.

O Homem é o Pastor do Universo na medida na em que tem de guardar e proteger a herança que recebeu e que por sua vez tem de deixar a outras gerações; é a responsabilidade de não deixar atrás de si um deserto mas um jardim, porque este mundo não é meu nem alguém se pode afirmar como o dono do mundo porque ele é de todos. Por isso, é necessário agir seriamente, em primeiro lugar em relação à geração presente, nomeadamente aquela parte da humanidade com menos recursos e que sofre, em grandes proporções as consequências do problema ecológico e, em segundo lugar, às gerações futuras, investindo na educação, como o mais essencial dos recursos.

É a vida de cada um de nós que está em jogo. É a nossa felicidade que, infelizmente, hoje se joga na roleta do económico que é preciso transferir para a roleta do humano. Enfim, somos chamados à “arte do pastor”: a dominar mas a cultivar e a guardar.
O mundo não é só laboratório mas também é jardim; é lugar de recreio e gratuidade.

4 comentários:

Carmo Cruz disse...

Raul, vou repetir-me: quem escreve, descreve-se, desvela-se, desnuda-se. Você está inteiro neste testemunho poético e reslista com que me ajuda a comemorar o Dia da Árvore. A forma como (nos)mostra, a quem o não souber, a relação entre Deus e cada um de nós é de uma força e de uma simplicidade absolutamente desarmantes.É também a forma como eu vejo Deus.Criou-nos, deu-nos os materiais, a ferramenta (a Razão, a racionalidade, a inteligência, digamos)e depois deu-nos a Liberdade de usarmos tudo isso. Nem sempre - ou antes - muitas vezes, não usamos bem nenhuma das dádivas. Temos que reflectir e fazer a nossa parte, cada um. Sempre com Fé e Esperança num Deus de Caridade: o meu Deus não corta as unhas rentes, não usa balança nem metro, o meu Deus é, antes de mais nada, Amor. E a melhor maneira de o retribuir é, de facto, fazermos dele um Jardim, isto é, prepará-lo para voltar a ser o Éden original. Somos pastores-guardadores, da Terra, dos Outros e de nós mesmos. Uma belíssima metáfora sua para desenhar o nosso papel. Obrigada por ter alegrado a minha manhã, o meu dia, a minha Vida. Pois a Vida é feita de instantes que se sucedem. E este foi um bom Instante. Foi (e é) um Instante Existente... Esta é para o Existente Instante, que também já ganhou um lugar na minha caixa de Afectos...
Agradeço-lhe com um Abraço forte. Para lhe mandar o sorriso, e porque sou uma competidora nata - no bom sentido, espero - só depois de tratar um dente que resolveu salientar-se... Porque é muito difícil competir com o seu...

BC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BC disse...

Em primeiro lugar,quero fazer um pequeno comentário à ternura do desenho que foi certamente feito por uma criança, os promenores, está maravilhoso!
Quanto ao texto não vou acrescentar
muito mais,tu sabes Raul quanto a
Natureza tem importância para mim, e faz parte de mim,também porque a comentadora de cima já disse tudo e eu subscrevo.
Só vou acrescentar, cultivem árvores!
A minha oliveirinha está a crescer
a olhos vistos no meu jardim...

Raul Martins disse...

Carmo, um sorriso que agradece a sua presença aqui.
Que este espaço continue na sua caixinha de afectos. O seu comentário engrandece, e de que maneira,o meu mundo.
Amanhã o seu filho vai estar connosco. Vai ser um momento comovente para mim. A vida proporciona-nos esses tais "instantes" que tornam a nossa existência gratificante.

Isabel, obrigado pela sua sempre presença amiga. O desenho, também suponho ser de uma criança. Retirei-o da net. Não sei quem é o autor.
Cá em casa todos os anos plantamos uma árvore. A última foi uma romanzeira, a pedido da minha "Pipoca", que se junta a uma figueira, a um limoeiro, a um marmeleiro, a um maracujá e a uma tangerineira. No horizonte também está uma oliveira. Em honra do nome de família da minha esposa.

Carpe diem!