quinta-feira, 31 de julho de 2008

O CANTINHO DO PADRE MÁRIO!

Jesus pobre, manso e crucificado


O Jesus homem do qual se enamora Teresa qualifica-se prioritariamente como o pobre, o crucificado, o que tomou sobre si toda a debilidade da existência humana, o Seu deserto, a Sua fome/sede de esperança.

S. Teresa é atraída pela crua realidade da incarnação. Em primeiro lugar é impressionada por representações da paixão de Jesus, depois é o crucificado do Evangelho a prendê-la, na concretização brutal do Seu sofrimento, quer na Sua oração no horto, quer nos vários momentos da paixão.

Jesus crucificado é, para ela, o sinal mais radical de pobreza, aquele que não teve nem casa nem lugar para poder reclinar a cabeça; depois o pobre que sempre viveu entre as tribulações duma vida cheia de angústias, injúrias e desprezos, assinada com uma paixão dolorosa, até estar, «en la cruz tan pobre y desnudo». Por último, o crucificado que experimentou o abandono da parte de Deus, que foi triturado pela dor. Teresa é subjugada pela figura de Jesus destruído pelo medo aterrador da impotência do Getsémani.

A divina não razoabilidade do sofrimento de Cristo, o seu paradoxo salvífico, ou seja, a via da cruz, seguida por Jesus, não como um acto heróico, mas no sofrimento e na impotência, torna-se a via real para cada cristão: «que por este camino fue Cristo han de ir los que le siguen, si no se quieren perder». «Si lo es, Dio mío, muramos con Vos, como dijo santo Tomás, que no es otra cosa sino morir muchas vezes vivir sin Vos, y con estos temores de que puede ser posible perderos para siempre».

Um gesto aparentemente não muito difícil: «Ya sabe que si ha de gozar del Crucificado ha de pasar cruz; y esto no es mester que lo pidan, que a los que Su Majestad ama llévalos como a su Hijo».

Mas o acolhê-la ou não, depende da liberdade, é fruto de uma escolha. Depende do homem que entrar na lógica da pobreza de espírito, encontrar a sua dignidade de homem e a sua glória no estar ao pé da cruz com S. João.

É a única via da redenção, que passa pela desolação. A via do servo fiel, que a todo o custo, sendo firme, segue o Senhor onde quer que vá.

Teresa lê, na cruz, toda a manifestação do mistério de Cristo, a realização do Seu projecto salvífico. É deslumbrada pela tensão com que Jesus, no pleno cumprimento da vontade do Pai, deseja a hora da kenosi, que é a hora da salvação e da glorificação.

A kenose de Jesus, a sua cruz, torna-se glória: pela absoluta gratuidade, pela potência de libertação. Torna-se conforto no sofrimento, modo de comunhão gozosa com Jesus, fonte de exultação.

Por conhecer o sofrimento, o Crucificado sabe recriar toda a vida humana. Transporta em si uma benevolência, uma graça que marca toda a sua existência. É o «manso e humilde de coração» capaz de confortar os que perderam a fé, consolar os que sofrem. É aquele que tem compaixão pelos homens, dos pecadores, dos débeis, como na ressurreição de Lázaro, que considera feito a si o que se fizer ao mais pequeno. É a mansidão de Jesus, o «mansíssimo cordeiro».

3 comentários:

Avó Pirueta disse...

Caríssimo Padre Mário, interrompi a minha "abstinência" blogosférica para o vir ler. Ah como eu amo este Cristo dos humildes, como eu creio neste Cristo dos pobres e se revê em todos! A parte do Jesus que, como Homem, sofre as mais pesadas dores e as assume, tenho sempre muita dificuldade em não ver Deus n'Ele. Mas sei que quem sofreu foi mesmo aquele Homem, de carne e osso, sangue, nervos e cérebro, que gemeu, chorou, como qualquer um de nós. Só que não havia nenhuma razão para Ele se sujeitar a tal. A não ser dar a Vida pelos Amigos!
Obrigada pelas sua mensagens. Faz-me muita falta dialogar sobre a Fé, sobre a Religião, sobre a Relação Homem-Deus-Igreja. E cada vez é mais difícil poder fazê-lo. É quase tabu.
Um bom fim-de-semana e um abraço grato da Maria do Carmo

renard disse...

Ouma,

Embora no blog do Raul tenho de respoder a este comentário que deixou (Espero que nem o Raul nem o Sr. Padre Mário não se importem).
Oumazinha, se lhe faz falta dialogar sobre esses assuntos da metafísica que são, de certeza, um bálsamo para a alma, faça-o!
A Avó bem sabe que sou ateia mas jamais terei qualquer pudor ou tabu em discutir esses assuntos se os quiser "por na mesa".
Obviamente não tem forma de o saber, mas falo bastante desse assunto com a Fátima e não repudio a necessidade que alguns têm de expressar-se sobre uma parte incontornável do seu SER.
Por isso, se quiser falar, fale! Eu, da minha parte, respondarei!

Uma valente beijoca para si aí nesse cantinho bucólico

Anónimo disse...

Caro Pe. Mário Jorge!

Fala de Jesus, ou melhor da forma como S. Teresa vê Jesus: enquanto homem foi um sofredor, abnegado, altruísta, desprezado...até ser crucificado.
Depois ressuscitou para nos salvar, pelo menos foi o que aprendi...

Incomoda-me pensar na vida terrena que ELE teve porque me custa imaginar um mundo só de maldade.
Tal como hoje, há «paletes» de gente má, mas, de certeza, que, para cada palete má, há duas de gente dita boa. O problema é que os bons «fazem menos barulho», notam-se menos... Dá trabalho ser bom:

= é preciso ser persistente;
= ouvir os outros;
= trabalhar sempre pela positiva;
= ser paciente;
= ser altruísta (sem, no entanto, nos esquecermos de nós);
= contar até dez, deixando que a vontade de resmungar passe ou, pelo menos, atenue...(perdemos a razão quando berramos).
= ...

Prefiro imaginar Jesus como um homem bom que mostrou o seu lado lutador, persistente, motivador e incentivador...

Por esse homem, tal como S. Teresa, eu também estou apaixonada...
Nesse homem eu acredito e por ELE sou capaz de trabalhar tentando contribuir, ainda que mal se veja, para UM MUNDO MELHOR!

«Our hands shape the world»

P.S.: A avó Pirueta está à espera de resposta sua há duas semanas.
Tem de estar atento aos comentários.

Um abraço a todos.