sexta-feira, 19 de março de 2010

FILHO PRÓDIGO!


Ao meu amigo M.P., com um abraço.


"Dois amigos, pai e filho, caminhando. Mas quem prestar atenção verá que entre eles vai surgindo um mundo. Da mansidão de olhar que não pede e nem manda vai acontecendo uma mágica... O mundo fica um lugar amigo. Às vezes jardim, onde tudo nos fala de beleza. À vezes lar, acolhedor e tranqüilo". (Rubem Alves)
O pai olhou o filho que se ausentava de mochila às costas. Uma lágrima correu-lhe por entre as ténues rugas da cara fria e rosada pelo vento que se fazia sentir. Ele sabia que mais tarde ou mais cedo aquele filho, o mais novo, iria partir para a Cidade da Avenida da Liberdade. Já nada o encantava na Cidade onde vivera até aquele dia: A Cidade da Rua da Liberdade - onde não há avenidas e a Rua da Liberdade é das ruas mais estreitas. Já em gerações anteriores acontecera o mesmo. Houve sempre alguém que partiu para a Cidade da Avenida da Liberdade. Poucos regressaram de lá. O último dos que partiram e voltaram, é aquele que agora vê o seu filho partir – e sabia tudo o que era aquela Cidade e aquela Avenida.

A Avenida da Liberdade atraía as pessoas por alguns dos seus encantos: Não há limites de velocidade; cada um conduz ao seu belo prazer, como quer e lhe apetece; não há sinais de trânsito nem polícias a controlar os excessos de velocidade nem a passar multas. Os problemas surgiam quando aconteciam acidentes e, infelizmente, havia muitos. Instalava-se o “caos”: Quem paga, quem assume, quem foi o maior culpado ou o maior lesado. Depois dos acidentes é que começam as grandes complicações na Avenida da Liberdade. Com o tempo, os que lá transitavam percebiam que, apesar do excelente campo visual e da adrenalina que se instava, nunca satisfazia plenamente alguém. O vício de percorrer aquela Avenida entranhava-se de tal maneira nas pessoas que muito dificilmente alguém conseguia de lá sair.

A Rua da Liberdade não é tão vistosa nem tão atraente: o trânsito é difícil e exige a máxima atenção dos que nela transitam. Há muitos sinais e alguns semáforos. Raramente se encontra um sinal vermelho que dure muito tempo e o que mais funciona é o verde. O amarelo vai lembrando que, na Rua da Liberdade, todo o cuidado é pouco. Não é um trajecto simpático e por isso muitos se lançavam na aventura de ir à procura da Avenida da Liberdade.

Depois da partida do seu filho, todos os dias, antes do sol-pôr, sentava-se na pedra que delimitava a fronteira entre as duas cidades e olhava o horizonte com a esperança de ver surgir uma silhueta que revelasse o regresso do seu filho. Foi naquela pedra que compôs algumas das suas canções ao som da guitarra que ele mesmo construíra. Muitos escutavam as suas canções e sabiam-nas de cor para ensinarem aos seus filhos e aos seus amigos.



Volta meu filho que partiste
Volta, sim, para o teu regaço
Espera-te, em casa, quem te ama
Pronto com um beijo e um abraço!



Era uma das suas preferidas. Estava a cantá-la, com mais amor que nunca, quando um amigo o interrompeu:

- Continuas a cantar pelo teu filho?
- Canto por ele e por mim. Tenho esperança no seu regresso. Eu também parti e voltei.
- Mas tu eras diferente. Eu conheço-te bem. Sempre brincámos juntos em pequenos e crescemos na mesma rua. És bem mais forte e corajoso que o teu filho. Não acredito que ele volte. Vai-lhe acontecer o mesmo que a muitos outros que vimos partir.
- Ninguém conhece o meu filho melhor do que eu. Eu sei o que ele vale.
- Porque não lhe chamaste a atenção dos perigos que a Avenida da Liberdade abarca?
- Não me alertaram a mim? Ouvi os conselhos que me deram? Tive que aprender eu próprio. O meu filho, também, parece-me, está a percorrer o mesmo caminho que o levará a encontrar as suas razões de viver.
- Mas devias ter-lhe contado a tua experiência. Tu próprio nos ensinaste que a única coisa que vale a pena ensinar aos outros é aquilo que lhes vai permitir ganhar tempo na aprendizagem do que é a vida. Mas tu próprio não fizeste isso ao teu filho!
Continuo a acreditar naquilo que te ensinei, porém, aquilo que podemos ensinar a uns e vai ajudá-los, pode não servir para outros. Alguns precisam de aprender por si próprios.
- És sempre imprevisível nas tuas respostas - depois destas palavras, o amigo despediu-se e foi-se embora.

O pai continuou de olhos fixos no horizonte e reparou que alguém descia o caminho em direcção da entrada da Cidade da Rua da Liberdade. O seu coração bateu forte e ele sentiu dentro de si que era o seu filho que estava de regresso. Quando tiveram a certeza quem eram, correram um para o outro e abraçaram-se.

- Eu sabia que tu regressavas! – disse o pai emocionado.
- E eu sabia que estarias à minha espera! – e apertou o pai num longo abraço. Depois, olharam-se durante alguns minutos envoltos em silêncio – mais precioso que muitas palavras – e soltaram lágrimas de felicidade.
- Desculpa meu pai o caminho que levei.
- É preferível continuarmos em silêncio. – Disse o pai enternecido. – Regressemos a casa.
- Mas pai, soube que tu também andaste por aqueles lados. Porque não me chamaste a atenção dos perigos que lá havia?
- Tu é que não estiveste atento ao que te fui ensinando e cheguei à conclusão que tinhas que aprender por ti próprio.
- Perdoa-me pai.
- Tens é que pedir perdão a ti próprio. O tempo que desperdiçaste era teu, não era meu. O caminho que percorreste era teu e de mais ninguém – foi dizendo o pai, sob o olhar atento do filho. – E sempre me ouviste dizer que na vida, de certa forma, não há erros; muitos dos acontecimentos em que participamos, por mais desagradáveis que sejam, são necessários para aprendermos o que precisamos de aprender. Errar, se assim quiseres, é aprender. O importante é lutarmos para não cometermos os mesmos “erros”.
- Não ficaste desiludido com a minha atitude?
- Fiquei triste na noite em que partiste e chorei toda a noite, mas desiludido? Nunca! Depois deixei de chorar e pensei e rezei por ti. Compreendi que tinhas que viver a tua vida até mudares e, apenas tu, só tu, o poderias fazer. Enquanto não arranjasses espaço na tua vida para alguém tão importante como tu próprio, viverias sempre sozinho, revoltado, insatisfeito, perdido. – Recuperou o folgo, com a ternura e a serenidade de sempre, continuou: - Não poderias ser um estranho de ti mesmo. A grande luta que tinhas que travar tinha que ser dentro de ti. Espero que tenhas encontrado o teu caminho e te tenhas encontrado a ti próprio e contigo. Espero que tenhas ganho a “batalha” mais importante da tua vida. – Esboçando um sorriso, ao mesmo tempo que acariciava o rosto do filho, concluiu: - Quando nasceste eu sabia que irias travar uma grande “batalha”. Por isso o nome que te dei.
- Não percebo!
- O teu nome, meu filho, significa “batalha”. Honra o teu nome e torna-te um grande “guerreiro”.
- Lembro-me de falares muitas vezes sobre isso do “guerreiro”.
- E foi falando sobre o “guerreiro” que eu te fui alertando para alguns “perigos” e te fui orientado para o caminho que eu achava correcto mas deste-me pouca atenção. – disse, franzindo o sobrolho. – Tinhas que encontrar o teu caminho pelos teus próprios meios.
- Quando andava pela “Avenida” da “Liberdade” vieram-me à memória muitas das coisas que me ensinaste. Só ali é que percebi muito do que me dizias.
- E foram essas “memórias” que te deram a força suficiente para regressares. Regressemos a casa. A tua mãe e os teus irmãos ficarão contentes por te reverem.

Os olhos do pai brilhavam de felicidade no caminho que levava a casa e o seu coração segredava: “Este meu filho andava perdido e encontrou-se; andava na escuridão e encontrou a Luz…” Colocando a mão no ombro do filho, disse-lhe: Há sempre uma estrela a guiar-nos!

10 comentários:

Tiago disse...

Uma história comovente. Uma boa paráfrase da parábola do bom samaritano. Gostei.

Margarida Fernandes disse...

Raul,

Com um ligeiro atraso deixo aqui um abraço e espero que tenhas tido um FELIZ DIA DO PAI.

Beijinho e bom fim-de-semana

Raul Martins disse...

Marga, um dia feliz, graças a Deus. Não sou muito destas "datas", mas é sempre uma forma de se alertar as pessoas para determinadas causas, ou celebrações como a do dia do pai.
.
Continuação de bom fim de semana, para ti e para o Paulo.

Filipe Camarinha disse...

a última vez que cá estive ainda não era pai.

abraço.
Filipe Camarinha

Raul Martins disse...

Pois é Filipe, agora que subiste um degrau nas tuas responsabilidades como ser humano, não deixes de acompanhar o teu rebento para que ele cresça em "sabedoria e graça". Um abraço!

BC disse...

Raul, no meios de flores coloridas e perfumadas, como os ovinhos desta época, não me esquecendo dos coelhinhos venho desejar-te a ti e a toda a tua família uma PÁSCOA SANTA E FELIZ!!!
Beijos da Isabel, sempre BC :)S SEMPRE

Fátima André disse...

Olá Raul,
Tenho andado um pouco arredia dos blogs, mas não me esqueço dos amigos. Venho deixar votos de uma Santa e Feliz Páscoa.
Abraço :)

Em@ disse...

Raúl:
Boa Páscoa e renovação de forças, brilho, criatividade e alegria.
beijinho tribal

Raul Martins disse...

Fátima e Ema, obrigado pela vossa passagem amiga. Também vos desejo uma Santa e Feliz Páscoa!

Filipe disse...

Não estou habituada a isto dos blogues. É o meu primeiro comentário num blogue.
E esta é uma história que me tocou bastante. Gosto muito da parte do texto do Rubem Alves. A a ideia da Liverdade como uma Rua/Avenida que se percorre está muito bem pensada.
Um abraço.