Mostrar mensagens com a etiqueta ternura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ternura. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de maio de 2008

"NÓS AINDA TROCAMOS CHINELOS..."



Quem tem passado por aqui deve ter lido algumas rubricas com os títulos "Coração Adolescente" e " A adolescência... o olhar dos pais." Ao ir colocando aqui os textos enquadrados nessas rubricas, tinha em mente um texto lindíssimo que havia lido há tempos e que falava do amor na terceira idade. Pois bem, hoje encontrei o texto e aqui quero deixá-lo. O texto está no inspirado e interessante livro de Rubem Alves, "As cores do crepúsculo, a estética do envelhecer." É uma carta que Dina, uma mulher de 86 anos, escreve ao Rubem e que ele nos dá a conhecer no citado livro e que eu aqui vos deixo um excerto:


"Uma estorinha vivida e presenciada por mim. Era o ano 47. Eu tinha que trabalhar muito para sustentar meus filhos, ajudar, porque o pai deles, não gostava de trabalhar em fábricas, era oleiro, e ganhava pouco.

Até quarta-feira, eu lavava roupas para fora. Passava-as a ferro de carvão. O resto da semana ia fazer limpeza nas casas, onde moravam inglesas e alemãs. Trabalhava às sextas-feiras para uma inglesa, ela tinha oitenta anos, o marido 82. Ela se chamava Miss Car e ele Mister Carr. O nome eu nunca perguntei, era "Miss" e "Mister".

Ele ainda trabalhava na cidade, sempre muito bem vestido, estatura média, e ela também. Ele vinha almoçar, naquela pontualidade britânica, dia.

Ela fazia o almoço. Eu limpava a casa e lavava a roupa, que ela passava sentadinha numa cadeira. Eu arrumava a mesa, guardanapos em argolas de prata e coisas que tais e sempre flores na mesa.

Ele chegava, tirava o paletó, e o colarinho sobressaliente duro qual papelão. Se lavava e os dois iam para a mesa. Depois eu tirava a mesa, isto é, o que havia em cima, servia o cafezinho, e quando ia levá-lo, ela estava sentada no colo dele, e ele a beijava no rosto e em seus cabelos, cabelos que ela os trazia sempre ondulados e ficavam assim agarradinhos como se fossem dois jovens. Eu achava lindo, e me perguntava: Será? Ele ia para o trabalho e ela ficava no portão, ele se voltava e acenava-lhe com a mão, até virar a esquina.

E um dia de manhã, eu arrumando o quarto d'ele, cada um dormia no seu. Aí eu encontrei dois chinelos, mas um era o d'ela.

Eu lhe disse: Miss, aqui tem um chinelo seu e outro do mister. E ela, com aquela carinha engraçada e de quem fôra bonita me disse, no seu português arrevezado: "Nós ainda trocamos chinelos..."

Eu arregalei os olhos e sorri, e vi n'aquela fraze tão natural e tão bela, que o amor, entre aqueles que se amam de verdade, nunca morre. Eu fiquei feliz com a felicidade e o amor que irradiava no rosto d'aquela velhinha simpática."